terça-feira, 15 de outubro de 2013

Psicoterapia: Expectativas Errôneas (1/2)

A ideia de receber psicoterapia pode invocar não apenas fortes objeções, mas também expectativas ilusórias. Temos grande capacidade de imaginação e isso é bom e normal em si mesmo. A imaginação só é prejudicial quando trocamos a realidade pela fantasia e/ou confundimos o real com imaginário, distorcendo nosso pensamento e comportamento.
   
Antes de fazer algo pela primeira vez. nós ficamos imaginando como será e cogitamos a partir das informações que temos. O mesmo ocorre quando procuramos psicoterapia. Como será o trabalho do psicólogo e o que eu farei? É uma nova experiência e o desconhecido pode ser estimulante e/ou assustador. Vejamos algumas expectativas irreais:
 
 
"A Cura Mágica!"
 
Quando crianças, não entendíamos os processos subjacentes envolvidos nos acontecimentos, os elementos e a dinâmica da vida. Pensávamos que tudo simplesmente ocorria de forma mágica, não necessariamente no sentido de sobrenatural, mas de não compreender princípios que regem nossa existência como causa e efeito, custo x benefício e outros. Por exemplo, nem imaginávamos tudo o que está envolvido em providenciar nossa alimentação, podia parecer que o alimento simplesmente surgia em casa.
 
E mesmo adultos, em maior ou menor grau, ainda esperamos que determinados acontecimentos ocorram de forma mágica. Talvez pensemos que uma pessoa com grande habilidade simplesmente já nasceu com ela, nem imaginando as centenas ou milhares de horas de treinamento que ela teve. Da mesma forma, tendemos a ter a expectativa de que diversos resultados em nossa vida ocorram de forma mágica e não como consequência de processos graduais e trabalhosos.
 
Um desses processos é o amadurecimento intelectual e emocional e a recuperação e retomada da vida após enfrentar reveses. Em certo sentido, o processo terapêutico é o aceleramento controlado dos nossos processos de regeneração e crescimento psicológicos.
  
Na medida em que a criança cresce, ela absorve informações que são associadas e discriminadas entre si e a partir destas informações processadas ela elabora uma compreensão da realidade, um paradigma. E conforme aumenta a sua capacidade de compreensão e o acervo de informações, ela vai aprimorando o seu paradigma. Os neurônios armazenam dados e fazem conexões entre si, formando redes neurais cada vez mais complexas. Toda vez que aprendemos algo, reforçamos ou expandimos essa rede. O desenvolvimento em cada nível ou etapa permite a entrada e bom desenvolvimento no nível ou etapa seguinte.
 
Às vezes, uma pessoa enfrenta desafios que estão além da capacidade de explicação e de orientação dos seus paradigmas. Então é necessário aprimorar ou alterar sua compreensão da realidade para poder agir de forma bem sucedida. Porém, em alguns casos o desafio pode estar além da capacidade atual de aprendizado da pessoa, gerando uma crise em sua vida. Talvez tenha tido falhas em seu desenvolvimento e por isso sua própria capacidade de aprendizagem apresenta disfunções básicas. Nestes casos, é necessária a ajuda de outros, até mesmo de profissionais.
 
 
"A Vida Prescrita em Receitas Fáceis!"
 
Outro conceito errôneo é que o trabalho do psicoterapeuta se resume a oferecer “receitas fáceis” para a vida, do tipo oferecido por livros e outros materiais de autoajuda com títulos atraentes e conteúdos simplistas e agradáveis, mas de qualidade psicológica duvidosa.
 
No decorrer do processo terapêutico, você e o psicólogo enfrentarão de forma corajosa e profunda os seus problemas que levar até o consultório. Nem tudo é o que parece à primeira vista. Ou é tão simples como parecia. Cada fato possui diversos aspectos, todo efeito possui diversas causas e toda causa produz vários efeitos. Na maioria das decisões há diversas alternativas possíveis, cada uma com vantagens e desvantagens. O psicólogo vai ajudá-lo a desenvolver sua capacidade de pensar e decidir.
 
A maioria de nós não teve este treinamento na infância e juventude. Pais, professores e outros adultos muitas vezes dizem às crianças e jovens o que estes devem pensar e fazer e não os ensinam a pensar com autonomia. Muitas vezes querem evitar que a criança ou jovem faça algo além da sua capacidade ou que se prejudique. Mas neste empenho podem acabar obstruindo o seu desenvolvimento. Alguns jovens se tornam subservientes e outros, rebeldes sem causa.
 
Além disso, os adultos costumam dizer à criança (e depois jovem) o que ele deve pensar e fazer de acordo com a visão do mundo e os valores deles próprios. Alguns treinam o pupilo para viver em um mundo que não existe mais. Outros transmitem conceitos distorcidos sobre a vida. O resultado é que tanto a forma como orientam (impedindo o desenvolvimento da autonomia) quanto o conteúdo das orientações (conceitos distorcidos) fazem parte dos problemas estruturais do indivíduo.
 
Assim, muitos vão ao psicólogo esperando que ele aja como seus pais, professores, etc.: dizendo o que eles devem pensar e fazer e receitando-lhes como devem encarar o mundo e conduzir sua vida. Os subservientes pensam que vão se sentar e absorver instruções simples passivamente. E os rebeldes sem causa, se forem, imaginam que o psicólogo tentará coagi-lo em seus pensamentos e ações. Porém, o objetivo do psicólogo é ensiná-lo a como processar seus pensamentos, sentimentos e problemas.
 
O que foi dito acima não significa que os conselhos de pais, professores, amigos e outros sempre foram e sempre são ruins. Ao contrário, agora é que eles poderão ser mais úteis, pois você desenvolverá a capacidade de diferenciar o que é válido do que é inválido, o que é questão de princípios do que é questão de gosto pessoal, saber identificar o que está de acordo com seus valores e objetivos. Então será capaz de ouvir e poderá tanto aceitar conselhos sem ser subserviente quanto recusar sem ser rebelde sem causa.
 
 
"Depois que Fizer Isso, Terei Só Alegria e Nenhum Problema!"
 
Uma expectativa ilusória a respeito da psicoterapia e da vida em geral é a convicção de que após determinado acontecimento especial (formatura, novo trabalho, casamento, divórcio, terapia, etc.) todos os problemas acabarão e tudo será sempre fácil e prazeroso. Mas esta situação só ocorre em contos infantis. Sempre há desafios, apenas aprimoramos nossa capacidade de enfrentá-los e/ou trocamos um conjunto de problemas por outro ao fazer alguma mudança importante.
 
A expectativa de uma vida sem problemas impede a pessoa de ser feliz. Pressupõe que é possível a existência humana sem dificuldades, mas que apenas pessoas capacitadas e/ou sortudas atingem esse patamar. Assim, reforça os sentimentos de incapacidade ou a crença mágica na “sorte” como principal contingência da vida. Infelizmente, muitas literaturas, filmes, ditados populares, etc. alimentam essa expectativa.
 
O raciocínio é que “vida boa é vida sem problemas; portanto sua vida não pode ser considerada boa enquanto tiver problemas”. Deste modo muitos continuam infelizes, aguardando o dia em que determinado acontecimento especial os fará “felizes para sempre”.
 
O amadurecimento consiste em trocar essa expectativa pela confiança de possuir força interior suficiente para enfrentar os desafios que surgirem sem perder totalmente o equilíbrio e orientação, nem perder o seu bem-estar subjetivo de forma permanente. Em vez de ficar fugindo da vida e aguardando perpetuamente uma utopia, aprender a viver, a resolver o que estiver dentro do seu poder e a aceitar o que estiver fora dele e desta forma ter uma satisfação geral na vida.
 
 
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