A ideia de receber psicoterapia pode invocar não apenas
fortes objeções, mas também expectativas ilusórias. Temos grande capacidade de
imaginação e isso é bom e normal em si mesmo. A imaginação só é prejudicial
quando trocamos a realidade pela fantasia e/ou confundimos o real com
imaginário, distorcendo nosso pensamento e comportamento.
Antes de fazer algo pela primeira vez. nós ficamos
imaginando como será e cogitamos a partir das informações que temos. O mesmo
ocorre quando procuramos psicoterapia. Como será o trabalho do psicólogo e o
que eu farei? É uma nova experiência e o desconhecido pode ser estimulante e/ou
assustador. Vejamos algumas expectativas irreais:
Quando crianças, não entendíamos os processos subjacentes
envolvidos nos acontecimentos, os elementos e a dinâmica da vida. Pensávamos que tudo simplesmente ocorria de forma mágica, não necessariamente
no sentido de sobrenatural, mas de não compreender princípios que regem nossa
existência como causa e efeito, custo x benefício e outros. Por exemplo, nem
imaginávamos tudo o que está envolvido em providenciar nossa alimentação, podia
parecer que o alimento simplesmente surgia em casa.
E mesmo adultos, em maior ou menor grau, ainda esperamos
que determinados acontecimentos ocorram de forma mágica. Talvez pensemos que
uma pessoa com grande habilidade simplesmente já nasceu com ela, nem imaginando
as centenas ou milhares de horas de treinamento que ela teve. Da mesma forma,
tendemos a ter a expectativa de que diversos resultados em nossa vida ocorram
de forma mágica e não como consequência de processos graduais e trabalhosos.
Um desses processos é o amadurecimento intelectual e
emocional e a recuperação e retomada da vida após enfrentar reveses. Em certo
sentido, o processo terapêutico é o aceleramento controlado dos nossos processos
de regeneração e crescimento psicológicos.
Na medida em que a criança cresce, ela absorve
informações que são associadas e discriminadas entre si e a partir destas informações
processadas ela elabora uma compreensão da realidade, um paradigma. E conforme
aumenta a sua capacidade de compreensão e o acervo de informações, ela vai
aprimorando o seu paradigma. Os neurônios armazenam dados e fazem conexões
entre si, formando redes neurais cada vez mais complexas. Toda vez que
aprendemos algo, reforçamos ou expandimos essa rede. O desenvolvimento em cada
nível ou etapa permite a entrada e bom desenvolvimento no nível ou etapa
seguinte.
Às vezes, uma pessoa enfrenta desafios que estão além da
capacidade de explicação e de orientação dos seus paradigmas. Então é
necessário aprimorar ou alterar sua compreensão da realidade para poder agir de
forma bem sucedida. Porém, em alguns casos o desafio pode estar além da
capacidade atual de aprendizado da pessoa, gerando uma crise em sua vida.
Talvez tenha tido falhas em seu
desenvolvimento e por isso sua própria capacidade de aprendizagem
apresenta disfunções básicas. Nestes casos, é necessária a ajuda de outros, até
mesmo de profissionais.
"A Vida Prescrita em Receitas Fáceis!"
Outro conceito errôneo é que o trabalho do psicoterapeuta
se resume a oferecer “receitas fáceis” para a vida, do tipo oferecido por
livros e outros materiais de autoajuda com títulos atraentes e conteúdos simplistas
e agradáveis, mas de qualidade psicológica duvidosa.
No decorrer do processo terapêutico, você e o psicólogo
enfrentarão de forma corajosa e profunda os seus problemas que levar até o
consultório. Nem tudo é o que parece à primeira vista. Ou é tão simples como
parecia. Cada fato possui diversos aspectos, todo efeito possui diversas causas
e toda causa produz vários efeitos. Na maioria das decisões há diversas alternativas
possíveis, cada uma com vantagens e desvantagens. O psicólogo vai ajudá-lo a
desenvolver sua capacidade de pensar e decidir.
A maioria de nós não teve este treinamento na
infância e juventude. Pais, professores e outros adultos muitas vezes dizem às
crianças e jovens o que estes devem pensar e fazer e não os ensinam a pensar
com autonomia. Muitas vezes querem evitar que a criança ou jovem faça algo além
da sua capacidade ou que se prejudique. Mas neste empenho podem
acabar obstruindo o seu desenvolvimento. Alguns jovens se tornam subservientes
e outros, rebeldes sem causa.
Além disso, os adultos costumam dizer à criança (e depois
jovem) o que ele deve pensar e fazer de acordo com a visão do mundo e os
valores deles próprios. Alguns treinam o pupilo para viver em um mundo que não
existe mais. Outros transmitem conceitos distorcidos sobre a vida. O resultado
é que tanto a forma como orientam (impedindo o desenvolvimento da autonomia)
quanto o conteúdo das orientações (conceitos distorcidos) fazem parte dos
problemas estruturais do indivíduo.
Assim, muitos vão ao psicólogo esperando que ele aja como
seus pais, professores, etc.: dizendo o que eles devem pensar e fazer e
receitando-lhes como devem encarar o mundo e conduzir sua vida. Os subservientes
pensam que vão se sentar e absorver instruções simples passivamente. E os
rebeldes sem causa, se forem, imaginam que o psicólogo tentará coagi-lo em seus
pensamentos e ações. Porém, o objetivo do psicólogo é ensiná-lo a como
processar seus pensamentos, sentimentos e problemas.
O que foi dito acima não significa que os conselhos de
pais, professores, amigos e outros sempre foram e sempre são ruins. Ao
contrário, agora é que eles poderão ser mais úteis, pois você desenvolverá a
capacidade de diferenciar o que é válido do que é inválido, o que é questão de
princípios do que é questão de gosto pessoal, saber identificar o que está de
acordo com seus valores e objetivos. Então será capaz de ouvir e poderá tanto
aceitar conselhos sem ser subserviente quanto recusar sem ser rebelde sem causa.
"Depois que Fizer Isso, Terei Só Alegria e Nenhum Problema!"
Uma expectativa ilusória a respeito da psicoterapia e da
vida em geral é a convicção de que após determinado acontecimento especial (formatura,
novo trabalho, casamento, divórcio, terapia, etc.) todos os problemas acabarão
e tudo será sempre fácil e prazeroso. Mas esta situação só ocorre em contos
infantis. Sempre há desafios, apenas aprimoramos nossa capacidade de
enfrentá-los e/ou trocamos um conjunto de problemas por outro ao fazer alguma
mudança importante.
A expectativa de uma vida sem problemas impede a pessoa
de ser feliz. Pressupõe que é possível a existência humana sem dificuldades,
mas que apenas pessoas capacitadas e/ou sortudas atingem esse patamar. Assim,
reforça os sentimentos de incapacidade ou a crença mágica na “sorte” como
principal contingência da vida. Infelizmente, muitas literaturas, filmes,
ditados populares, etc. alimentam essa expectativa.
O raciocínio é que “vida boa é vida sem problemas;
portanto sua vida não pode ser considerada boa enquanto tiver problemas”. Deste
modo muitos continuam infelizes, aguardando o dia em que determinado acontecimento
especial os fará “felizes para sempre”.
O amadurecimento consiste em trocar essa expectativa pela
confiança de possuir força interior suficiente para enfrentar os desafios que
surgirem sem perder totalmente o equilíbrio e orientação, nem perder o seu
bem-estar subjetivo de forma permanente. Em vez de ficar fugindo da vida e
aguardando perpetuamente uma utopia, aprender a viver, a resolver o que estiver dentro do seu
poder e a aceitar o que estiver fora dele e desta forma ter uma satisfação
geral na vida.
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