terça-feira, 1 de outubro de 2013

Montaigne e a Autoestima (1/2)

 
Visualize a formatura de alunos ricos de uma prestigiosa universidade, começando sua vida de status, fama, poder. Essa visão pode nos fazer pensar que não somos tão inteligentes, ricos, talentosos e bem sucedidos quanto eles e assim nos entristecer, embora não seja a intenção deles fazer outras pessoas se sentirem mal. Se nos sentimos desta forma, Michel de Montaigne tem algo a nos dizer.
 
Montaigne foi um filósofo muito amável, pois procurou compreender o que faz as pessoas se sentirem mal e buscou nos ajudar a nos sentirmos melhor. Ele cobre três áreas em que podemos nos sentir inadequados: (1°) com respeito ao nosso corpo, (2º) com respeito à desaprovação dos outros aos nossos hábitos e (3º) com respeito ao nosso intelecto, por acreditarmos que não somos tão inteligentes quanto deveríamos. Nestas três áreas Montaigne apresentou soluções simples para nós.
 
Ele viveu em um castelo com vista para um bosque no centro da França no século 16. Era um nobre, advogado, amigo do rei e foi prefeito duas vezes. Essa informação pode evocar estereótipos e nos fazer sentir ainda mais inadequados. Mas aos 38 anos isolou-se em seu castelo para ler, refletir e escrever. No começo não sabia sobre o que escrever, então resolveu relatar banalidades a respeito de si mesmo, seus hábitos cotidianos e seu corpo.
 
Acreditava que a literatura não refletia as experiências humanas, o que levava a uma imagem idealizada de como uma pessoa deveria ser e consequentemente gerava autodepreciação. Então escreveu essas banalidades para nos ajudar a aceitar a nós mesmos como somos.
 
Montaigne trabalhava em uma torre em seu castelo. No térreo havia uma capela, de modo que ele podia ouvir a missa. Essa torre ainda existe e é como era naquele tempo. Gostava tanto da sensação de adormecer que pedia para tocarem os sinos de madrugada para que ele pudesse acordar e voltar a dormir. Seu gabinete possuía mais de mil livros em semicírculo e espaço para ele caminhar e ter ideias.
 
Muitos filósofos ensinaram que o fato de termos uma mente racional pode nos levar à felicidade e que a razão pode nos proporcionar a realização. Porém, Montaigne ensinou que temos muitos problemas justamente por possuirmos nossa mente.
 
O primeiro problema de termos uma mente racional é que criamos uma relação estranha com nosso corpo e nos sentimos descontentes com nosso físico, diferentemente dos outros animais. Montaigne conheceu um homem que se suicidou porque soltou gases em um banquete, uma mulher que só comia escondida por vergonha de mastigar diante de outros e um que se preocupava com a aparência de seu corpo quando fosse enterrado.
 
As pessoas se sentiam constrangidas com a fisiologia e anatomia porque o corpo raramente era mencionado nas leituras e nas conversas educadas. Montaigne nos lembrou de que temos muito em comum com os animais, que reis e damas também defecam. Neste sentido, os animais são mais sábios do que nós, pois aceitam seus corpos e as funções corporais. Devemos aprender com eles e aceitarmos com naturalidade a nós mesmos.
 
O segundo problema de termos um cérebro tão poderoso é que ele nos torna arrogantes: faz-nos acreditar que sabemos o que é certo e bom e nos faz querer impor isso aos outros. Toda cultura tem seu conceito de normalidade quanto ao que comer, vestir, fazer, dizer e acreditar. Se sair dessa definição, enfrentará preconceitos, críticas e zombaria, mesmo que não esteja prejudicando ninguém.
 
Dividimos arbitrariamente o mundo em “normal” e “anormal”. Porém, as pessoas vão muito além de apenas criticar e zombar. A intolerância a costumes diferentes motivou muita perseguição e muitos crimes no decorrer da História. Montaigne ficou estarrecido com os massacres que os colonizadores espanhóis de sua época fizeram contra os índios, apesar de muitos europeus daquele tempo considerarem aceitável.
 
Nós podemos enfrentar em graus menores o mesmo preconceito que os índios sofreram se nos afastarmos dos costumes de nossa localidade. Como extrair o preconceito de dentro de nós? Viaje! Faça viagens literais ou simbólicas. Depare-se com a diversidade humana e perceberá que o que uma cultura considera estranho, outra considera normal. Todos nós temos preconceitos absorvidos de nossa cultura. Conhecer outras culturas ameniza nossos preconceitos por ampliar a nossa mente e nos permite ver como nossa mente obtusa é opressiva.
 
Porém, Montaigne não disse que todas as culturas são tão boas quanto as outras em todos os aspectos. Apenas criticou a forma como decidimos o que é bom e o que é ruim com base em costumes e não na razão. Com uma perspectiva mais global seremos mais receptivos, não só aos outros, mas também a nós mesmos. Seremos menos coercitivos como cidadãos do mundo.
 
 
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