Visualize a
formatura de alunos ricos de uma prestigiosa universidade, começando sua vida
de status, fama, poder. Essa visão pode nos fazer pensar que não somos tão
inteligentes, ricos, talentosos e bem sucedidos quanto eles e assim nos
entristecer, embora não seja a intenção deles fazer outras pessoas se sentirem
mal. Se nos sentimos desta forma, Michel de Montaigne tem algo a nos dizer.
Montaigne foi um
filósofo muito amável, pois procurou compreender o que faz as pessoas se sentirem
mal e buscou nos ajudar a nos sentirmos melhor. Ele cobre três áreas em que
podemos nos sentir inadequados: (1°) com respeito ao nosso corpo, (2º) com respeito
à desaprovação dos outros aos nossos hábitos e (3º) com respeito ao nosso intelecto,
por acreditarmos que não somos tão inteligentes quanto deveríamos. Nestas três
áreas Montaigne apresentou soluções simples para nós.
Ele viveu
em um castelo com vista para um bosque no centro da França no século 16. Era um
nobre, advogado, amigo do rei e foi prefeito duas vezes. Essa informação pode
evocar estereótipos e nos fazer sentir ainda mais inadequados. Mas aos 38 anos
isolou-se em seu castelo para ler, refletir e escrever. No começo não
sabia sobre o que escrever, então resolveu relatar banalidades a respeito
de si mesmo, seus hábitos cotidianos e seu corpo.
Acreditava que a
literatura não refletia as experiências humanas, o que levava a uma imagem
idealizada de como uma pessoa deveria ser e consequentemente gerava autodepreciação.
Então escreveu essas banalidades para nos ajudar a aceitar a nós mesmos como
somos.
Montaigne trabalhava em uma torre em seu castelo. No térreo havia uma
capela, de modo que ele podia ouvir a missa. Essa torre ainda existe e é como
era naquele tempo. Gostava tanto da sensação de adormecer que pedia para
tocarem os sinos de madrugada para que ele pudesse acordar e voltar a dormir.
Seu gabinete possuía mais de mil livros em semicírculo e espaço para ele
caminhar e ter ideias.
Muitos filósofos
ensinaram que o fato de termos uma mente racional pode nos levar à felicidade e
que a razão pode nos proporcionar a realização. Porém, Montaigne ensinou que
temos muitos problemas justamente por possuirmos nossa mente.
O primeiro
problema de termos uma mente racional é que criamos uma relação estranha com
nosso corpo e nos sentimos descontentes com nosso físico, diferentemente dos
outros animais. Montaigne conheceu um homem que se suicidou porque
soltou gases em um banquete, uma mulher que só comia escondida por
vergonha de mastigar diante de outros e um que se preocupava com a aparência
de seu corpo quando fosse enterrado.
As pessoas se sentiam constrangidas com a
fisiologia e anatomia porque o corpo raramente era mencionado nas leituras e
nas conversas educadas. Montaigne nos lembrou de que temos muito em comum com
os animais, que reis e damas também defecam. Neste sentido, os animais são mais
sábios do que nós, pois aceitam seus corpos e as funções corporais. Devemos
aprender com eles e aceitarmos com naturalidade a nós mesmos.
O segundo
problema de termos um cérebro tão poderoso é que ele nos torna arrogantes: faz-nos
acreditar que sabemos o que é certo e bom e nos faz querer impor isso aos
outros. Toda cultura tem seu conceito de normalidade quanto ao que comer,
vestir, fazer, dizer e acreditar. Se sair dessa definição, enfrentará
preconceitos, críticas e zombaria, mesmo que não esteja prejudicando
ninguém.
Dividimos
arbitrariamente o mundo em “normal” e “anormal”. Porém, as pessoas vão muito
além de apenas criticar e zombar. A intolerância a costumes diferentes motivou
muita perseguição e muitos crimes no decorrer da História. Montaigne ficou
estarrecido com os massacres que os colonizadores espanhóis de sua época
fizeram contra os índios, apesar de muitos europeus daquele tempo considerarem aceitável.
Nós podemos
enfrentar em graus menores o mesmo preconceito que os índios sofreram se nos
afastarmos dos costumes de nossa localidade. Como extrair o preconceito de
dentro de nós? Viaje! Faça viagens literais ou simbólicas. Depare-se com a
diversidade humana e perceberá que o que uma cultura considera estranho, outra
considera normal. Todos nós temos preconceitos absorvidos de nossa cultura.
Conhecer outras culturas ameniza nossos preconceitos por ampliar a nossa mente
e nos permite ver como nossa mente obtusa é opressiva.
Porém, Montaigne
não disse que todas as culturas são tão boas quanto as outras em todos os aspectos.
Apenas criticou a forma como decidimos o que é bom e o que é ruim com base em
costumes e não na razão. Com uma perspectiva mais global seremos mais
receptivos, não só aos outros, mas também a nós mesmos. Seremos menos
coercitivos como cidadãos do mundo.
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