Antes de conhecer um psicólogo real, talvez tenhamos
determinadas expectativas e formemos um psicólogo imaginário. Daí, quando
conhecemos um profissional, ele talvez seja um tanto diferente do que esperávamos.
Se nossa expectativa for muito idealizada, nenhum ser humano poderá
satisfazê-la. Não somos obrigados a aceitar fazer terapia com um psicólogo que
conhecemos, podemos conhecer outros e escolher. Mas pondere suas razões para
recusar ou aceitar um profissional.
Outro vestígio de pensamento primitivo que podemos
ter em algum grau é a expectativa de que pessoas em posições de autoridade
tenham qualidades muito elevadas, até sobre-humanas. É válido esperar que
alguém seja minimamente qualificado para o cargo que ocupa, o problema é
alimentarmos expectativas exageradas ou inadequadas e depois ficarmos
decepcionados.
Atribuir ao psicólogo qualidades quase sobre-humanas está
ligado à ideia de que a terapia seja um momento mágico. Essas
expectativas minimizam a responsabilidade da própria pessoa no processo. Na
realidade, é um trabalho conjunto em que o empenho do ajudado é fundamental.
Essas crenças também podem indicar uma sensação de
impotência pessoal: eu não consigo nada e vou entregar o problema para alguém
capaz. Porém, a razão de ser de receber terapia, além de ajudar a enfrentar uma
crise imediata, é justamente desenvolver de forma gradual a própria capacidade
de lidar bem com os problemas. Infelizmente, muitos encerram a terapia depois
do alívio imediato.
Existem limites no que qualquer pessoa pode fazer por
você. Outros podem dar orientação e apoio, mas compete a você tomar suas
decisões, estabelecer seus objetivos, agir, ajustar o seu pensamento e comportamento,
trabalhar seu bem-estar subjetivo e otimizar os seus resultados na vida.
O psicólogo tem as mesmas potencialidades e limitações
que todos os seres humanos possuem. Como indivíduo, possui suas próprias
características, pontos fortes e pontos fracos, oportunidades e riscos. De modo
geral você não vai saber exatamente quais são, pois não é necessário nem
apropriado saber disso. Porém, pode e deve conscientizar-se de que ele tem sim
os seus próprios pontos e circunstâncias, sejam quais forem.
Além disso, um
psicólogo possui formação superior na área e presume-se que tenha maturidade e
altruísmo. Mas não possui percepção extra-sensorial e outras capacidades sobre-humanas.
É um ser humano capacitado para ajudá-lo, mas que precisa de sua cooperação
para isso.
Alguns temem receber psicoterapia e ficar dependentes do
psicólogo. Talvez seja bom adiar decisões importantes nos primeiros meses caso
suas emoções estejam alteradas e afetando seu raciocínio. Mas você sempre mantém
o controle de sua situação. Estará apenas temporariamente se
submetendo à orientação do psicólogo justamente para melhorar sua capacidade de
dirigir sua vida e assim aumentar sua autonomia. E o terapeuta não vai tomar
decisões por você, esta tarefa é sua.
Havendo um relacionamento terapêutico, sentimentos
positivos e negativos podem aflorar em relação ao psicólogo. Estamos falando de
assuntos sensíveis que evocam estes sentimentos (às vezes, falando pela
primeira vez) e sendo ouvidos com empatia e bem orientados (talvez ouvidos de
verdade pela primeira vez também). Ambos estão se conhecendo e podem tirar
conclusões incorretas sobre o que o outro quis dizer. Aprender a diferenciar o
psicólogo real do psicólogo imaginário faz parte do processo.
No decorrer do relacionamento terapêutico é comum surgir
um apreço mútuo. O consulente pode apreciar o psicólogo e acreditar que ambos
seriam bons amigos. Pode ser verdade, mas vocês se conheceram em um contexto
clínico e este relacionamento, embora possa e deva ser amigável, não deve se transformar em uma amizade fora da clínica para não prejudicar o processo terapêutico.
Além disso, a pessoa com quem você gostaria de fazer amizade muitas vezes não é
o desconhecido ser humano real, mas sim o ser
superior que projeta nele, cuja suposta plenitude quer absorver.
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