terça-feira, 15 de outubro de 2013

Psicoterapia: Expectativas Errôneas (2/2)

 
Antes de conhecer um psicólogo real, talvez tenhamos determinadas expectativas e formemos um psicólogo imaginário. Daí, quando conhecemos um profissional, ele talvez seja um tanto diferente do que esperávamos. Se nossa expectativa for muito idealizada, nenhum ser humano poderá satisfazê-la. Não somos obrigados a aceitar fazer terapia com um psicólogo que conhecemos, podemos conhecer outros e escolher. Mas pondere suas razões para recusar ou aceitar um profissional.
 
Outro vestígio de pensamento primitivo que podemos ter em algum grau é a expectativa de que pessoas em posições de autoridade tenham qualidades muito elevadas, até sobre-humanas. É válido esperar que alguém seja minimamente qualificado para o cargo que ocupa, o problema é alimentarmos expectativas exageradas ou inadequadas e depois ficarmos decepcionados.
 
Atribuir ao psicólogo qualidades quase sobre-humanas está ligado à ideia de que a terapia seja um momento mágico. Essas expectativas minimizam a responsabilidade da própria pessoa no processo. Na realidade, é um trabalho conjunto em que o empenho do ajudado é fundamental.
 
Essas crenças também podem indicar uma sensação de impotência pessoal: eu não consigo nada e vou entregar o problema para alguém capaz. Porém, a razão de ser de receber terapia, além de ajudar a enfrentar uma crise imediata, é justamente desenvolver de forma gradual a própria capacidade de lidar bem com os problemas. Infelizmente, muitos encerram a terapia depois do alívio imediato.
 
Existem limites no que qualquer pessoa pode fazer por você. Outros podem dar orientação e apoio, mas compete a você tomar suas decisões, estabelecer seus objetivos, agir, ajustar o seu pensamento e comportamento, trabalhar seu bem-estar subjetivo e otimizar os seus resultados na vida.
 
O psicólogo tem as mesmas potencialidades e limitações que todos os seres humanos possuem. Como indivíduo, possui suas próprias características, pontos fortes e pontos fracos, oportunidades e riscos. De modo geral você não vai saber exatamente quais são, pois não é necessário nem apropriado saber disso. Porém, pode e deve conscientizar-se de que ele tem sim os seus próprios pontos e circunstâncias, sejam quais forem.
 
Além disso, um psicólogo possui formação superior na área e presume-se que tenha maturidade e altruísmo. Mas não possui percepção extra-sensorial e outras capacidades sobre-humanas. É um ser humano capacitado para ajudá-lo, mas que precisa de sua cooperação para isso.
 
Alguns temem receber psicoterapia e ficar dependentes do psicólogo. Talvez seja bom adiar decisões importantes nos primeiros meses caso suas emoções estejam alteradas e afetando seu raciocínio. Mas você sempre mantém o controle de sua situação. Estará apenas temporariamente se submetendo à orientação do psicólogo justamente para melhorar sua capacidade de dirigir sua vida e assim aumentar sua autonomia. E o terapeuta não vai tomar decisões por você, esta tarefa é sua.
 
Havendo um relacionamento terapêutico, sentimentos positivos e negativos podem aflorar em relação ao psicólogo. Estamos falando de assuntos sensíveis que evocam estes sentimentos (às vezes, falando pela primeira vez) e sendo ouvidos com empatia e bem orientados (talvez ouvidos de verdade pela primeira vez também). Ambos estão se conhecendo e podem tirar conclusões incorretas sobre o que o outro quis dizer. Aprender a diferenciar o psicólogo real do psicólogo imaginário faz parte do processo.
 
No decorrer do relacionamento terapêutico é comum surgir um apreço mútuo. O consulente pode apreciar o psicólogo e acreditar que ambos seriam bons amigos. Pode ser verdade, mas vocês se conheceram em um contexto clínico e este relacionamento, embora possa e deva ser amigável, não deve se transformar em uma amizade fora da clínica para não prejudicar o processo terapêutico. Além disso, a pessoa com quem você gostaria de fazer amizade muitas vezes não é o desconhecido ser humano real, mas sim o ser superior que projeta nele, cuja suposta plenitude quer absorver.
 
 
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