quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Sócrates e a Autoconfiança (1/2)


Sócrates viveu em Atenas em 469AC, há 2.550 anos e nos ensinou que saber pensar logicamente nos ajuda a ter mais independência, autoconfiança, opiniões alicerçadas e sermos menos conformistas, menos manipuláveis pelas opiniões dos outros. Ele morreu por suas crenças e suas ideias podem nos ajudar a defendermos as nossas.
 
Sócrates não escreveu nenhum livro, suas ideias foram escritas por seu discípulo Platão. Casou-se com uma mulher rabugenta chamada Xantipa. Quando perguntavam por que, respondia que amestradores deviam treinar com animais difíceis. Hoje é considerado um dos maiores, até mesmo o maior de todos os filósofos gregos.
 
Era extremamente feio, o que complementava não tomando banho, nem trocando de túnica e não usando sandálias. As idiossincrasias de Sócrates apontam para a inspiradora ideia de que devemos desenvolver confiança em nossas próprias ideias e não sermos indevidamente influenciados pelos outros. Como ovelhas no rebanho, as pessoas em geral têm o impulso de seguir passivamente a maioria e sentir pavor de se afastarem do grupo.
 
Por que seguimos os outros, em especial pessoas importantes? Em parte por acreditarmos que elas sabem o que dizem e que por esta razão devemos segui-las. Certo diretor de uma indústria farmacêutica começou a considerar os relatórios muito otimistas e que os acionistas não estavam sabendo de tudo. Mas será possível que só ele estivesse certo e os outros onze membros da diretoria estivessem errados?
 
Em uma situação como esta podemos até duvidar da nossa própria sanidade, pois nosso impulso é acreditar que a maioria está certa. Além disso, existe a pressão cultural para ajustar-se ao grupo. E nós queremos agradar nossos colegas, principalmente nossos chefes. Acreditamos que as autoridades têm razão. Mas Sócrates queria que desafiássemos estes pressupostos por pensarmos logicamente sobre o que as autoridades dizem em vez de ficarmos paralisados diante da sua aura de importância e ar de certeza.
 
Para decidir se concordaria ou não com as palavras de uma autoridade, Sócrates tinha uma vantagem sobre nós: podia facilmente ter uma conversa pessoal com ela. Atenas tinha apenas 150.000 habitantes, e a população se reunia em uma praça central chamada “Ágora”. Sócrates acordava cedo, andava entre os mercadores e encontrava os formadores de opinião da cidade: generais, oradores, estadistas e aristocratas.
 
Os abordava e fazia perguntas sobre a vida, sobre por que viviam como viviam. Descobria inconsistências surpreendentes na compreensão das pessoas a respeito de suas próprias vidas. Ricos não sabiam por que eram ricos, generais não sabiam por que guerreavam. A lição fascinante que tiramos é que, se tivermos a oportunidade de conversar com pessoas importantes e lhes propor questões sobre as suas vidas, encontraremos inconsistências que não correspondem à sua conduta confiante.
 
Uma razão de porque evitamos discordar dos outros é que temos consciência de como é fácil arranjar confusão à toa por parecermos teimosos e renitentes. Sócrates era um não-conformista e brigava pelos atenienses. Mas não era motivado pelo desejo de obrigar outros a fazerem tudo do seu jeito, nem pela excentricidade. Seu não-conformismo era movido pela busca da verdade e pelo desafio às suposições fáceis.
 
Sócrates abordava pessoas comuns e lhes fazia perguntas existenciais, o que é fascinante, mas também muito irritante. Perguntas sobre suas crenças podem fazer muitas pessoas reagir agressivamente.
 
Também pode ser um pouco assustador para quem aborda o outro com as perguntas, especialmente se o questionador for tímido. As pessoas podem lhe olhar com estranheza e pensar que você já sabe a resposta e está tentando ser superior a elas. Mas Sócrates não tinha essas inibições. Preferia ser considerado exagerado e estranho a permitir que seus concidadãos vivessem sem refletir. Queria que examinássemos nossas crenças mesmo a caminho do mercado.
 
É fácil imaginar como Sócrates incomodava os atenienses. Mas na essência dessa abordagem estava a ideia equitativa de que todos têm o dever de refletir sobre a vida e de que todos nós somos capazes de fazê-lo. Em geral não queremos pensar em por que vivemos como vivemos, muito menos ter que explicar. Sócrates pediu que superássemos essa preguiça e timidez para construirmos ideias sólidas e sermos capazes de defendê-las com bom fundamento, nos convidou ao não-conformismo inteligente.
 
Sócrates não só nos dá confiança para desafiar ideologias, crenças e tradições dominantes, ele também nos oferece maneiras de desenvolvermos nossas crenças para que nos separemos da multidão. Para isso devemos submeter nossas ideias a um teste rigoroso, se elas resistirem é porque vale a pena mantê-las e defendê-las.
 
O motivo pelo qual existem muitas ideias confusas e inexatas é que muitos pensam ser possível ter boas ideias sem refletir muito sobre elas. Sócrates considerava isso loucura. Para demonstrar essa incoerência, comparava o pensamento à cerâmica. É impossível fazer bons vasos sem seguir procedimentos rigorosos, assim como é impossível ter boas ideias sobre Ética, sobre a maneira como vivemos e outros assuntos importantes sem critério e esforço mental.

 

 

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