O vício de depreciar pode ser uma forma de
proteger-se, de evitar confronto direto, de não assumir uma responsabilidade,
de fazer um ataque passivo-agressivo, de exercer autoritarismo, de
engrandecer-se à custa de outros e assim por diante. Em todos os maus usos, o
“sim, mas” é uma negação como ferramenta de poder, obstruindo nosso desempenho
e até destruindo nossos objetivos. Pode causar nossa derrocada quando a usamos
contra nós mesmos e pode nos isolar e nos antagonizar quando usamos contra
outros.
Todos os Dez Erros dessa série podem atuar
separadamente ou em conjunto. O erro do vício de depreciar costuma “trabalhar
em equipe”. Com frequência, é produto e produtor de outros erros.
A esposa de Maurício disse que quer o divórcio.
Ele fica abalado e lhe pergunta o que pode fazer para salvar o casamento deles.
Melissa elabora uma lista de sete mudanças que Maurício deve fazer e ele vai conversar
com um psicoterapeuta sobre o assunto.
O psicólogo lhe pergunta qual é o primeiro item da
lista. É que ele seja mais afetuoso, que a abrace e diga palavras carinhosas,
em vez de só dar atenção a ela quando quer sexo. Então ele pergunta a Maurício
quantas vezes ele teve esse comportamento desde que a esposa lhe apresentou a
lista. Nenhuma.
Maurício explica que não deve ser isso que
realmente a incomoda, deve haver algo mais por trás disso. Mas ele não sabe o
que seria este motivo oculto. Além disso, mesmo que ele passasse a praticar
esse novo comportamento, ainda haveria os seis outros tópicos para ela
reclamar. Então o psicólogo lhe pergunta se ele consegue começar já a praticar
esse comportamento. Maurício responde que sim, mas...
O “sim, mas” está arruinando o casamento de
Maurício: sim, ela diz que quer isso, mas o problema não deve ser esse. Ele
também incorre no erro da telepatia. Talvez tenha razão e Melissa esteja de
fato ocultando as verdadeiras causas de sua raiva. Mas ele não tem como saber
se não colocar suas palavras à prova. Caso ele cumpra esse item e ela continue
raivosa, ele terá fatos com os quais argumentar. Porém, insistindo na especulação,
ele nunca descobrirá.
Maurício também comete o erro do perfeccionismo.
Não adianta ele buscar cumprir o primeiro item porque ainda haverá os outros
seis para ela reclamar, então ele não cumpre nenhum. Tudo ou nada já e sem falhas.
Se não puder solucionar todos os problemas de um só golpe fulminante, não vai
tentar resolver nenhum. Soluções parciais e graduais são inaceitáveis.
Sim, Maurício quer salvar o seu casamento. Mas ele
não vai fazer nada para resolver os seus problemas até ter certeza absoluta e a
priori de quais são exatamente as suas causas e até ser capaz de solucioná-los
de forma imediata e total.
Outro exemplo: Sara era viúva há vinte anos quando
conheceu Timóteo e surgiu o interesse mútuo. Ambos se davam bem, seus
respectivos filhos aceitavam o relacionamento, tinham condições de se casaram e
desejavam isso. Porém, Sara cogitava: “Sim, gosto dele, ele é bondoso, bem
informado, trabalhador, administra bem sua vida... mas ele é sapateiro!”.
Sara possivelmente é uma perfeccionista que exige
que um pretendente atenda plenamente a todos os seus critérios, sem concessões
nem senso de prioridade. Também pode ser viciada em ansiedade excessiva e
esteja inventando pretextos para não se casar por medo de não conseguir se
adaptar. Ou pode ter outros problemas e/ou cometer outros erros cognitivos. De
qualquer forma, em vez de enfrentar seus medos e lidar com eles, ela se
entrincheira no vício de depreciar.
O “sim, mas” combina com todos os erros
cognitivos. O autodepreciador que rejeita vinte opiniões positivas a respeito
de sua nova camisa e foca a única opinião negativa é alguém hipersensível às
críticas e aquele veto atingiu seu ponto fraco. Da mesma forma, o vício de
depreciar encaixa-se com o catastrofismo, com a paranoia de perseguição, com a
superconfiança e com a compulsão de comparar-se.
Qualquer que seja a
combinação, o “sim, mas” é perigoso porque elimina o prazer, prejudica os
relacionamentos, limita as possibilidades e desencoraja soluções significativas
por fazê-lo andar em círculos.
* * *

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Envie-nos seu comentário inteligente e educado: