quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Vício de Depreciar (3/5): Erros em Equipe


O vício de depreciar pode ser uma forma de proteger-se, de evitar confronto direto, de não assumir uma responsabilidade, de fazer um ataque passivo-agressivo, de exercer autoritarismo, de engrandecer-se à custa de outros e assim por diante. Em todos os maus usos, o “sim, mas” é uma negação como ferramenta de poder, obstruindo nosso desempenho e até destruindo nossos objetivos. Pode causar nossa derrocada quando a usamos contra nós mesmos e pode nos isolar e nos antagonizar quando usamos contra outros.


Todos os Dez Erros dessa série podem atuar separadamente ou em conjunto. O erro do vício de depreciar costuma “trabalhar em equipe”. Com frequência, é produto e produtor de outros erros.

A esposa de Maurício disse que quer o divórcio. Ele fica abalado e lhe pergunta o que pode fazer para salvar o casamento deles. Melissa elabora uma lista de sete mudanças que Maurício deve fazer e ele vai conversar com um psicoterapeuta sobre o assunto.

O psicólogo lhe pergunta qual é o primeiro item da lista. É que ele seja mais afetuoso, que a abrace e diga palavras carinhosas, em vez de só dar atenção a ela quando quer sexo. Então ele pergunta a Maurício quantas vezes ele teve esse comportamento desde que a esposa lhe apresentou a lista. Nenhuma.

Maurício explica que não deve ser isso que realmente a incomoda, deve haver algo mais por trás disso. Mas ele não sabe o que seria este motivo oculto. Além disso, mesmo que ele passasse a praticar esse novo comportamento, ainda haveria os seis outros tópicos para ela reclamar. Então o psicólogo lhe pergunta se ele consegue começar já a praticar esse comportamento. Maurício responde que sim, mas...

O “sim, mas” está arruinando o casamento de Maurício: sim, ela diz que quer isso, mas o problema não deve ser esse. Ele também incorre no erro da telepatia. Talvez tenha razão e Melissa esteja de fato ocultando as verdadeiras causas de sua raiva. Mas ele não tem como saber se não colocar suas palavras à prova. Caso ele cumpra esse item e ela continue raivosa, ele terá fatos com os quais argumentar. Porém, insistindo na especulação, ele nunca descobrirá.

Maurício também comete o erro do perfeccionismo. Não adianta ele buscar cumprir o primeiro item porque ainda haverá os outros seis para ela reclamar, então ele não cumpre nenhum. Tudo ou nada já e sem falhas. Se não puder solucionar todos os problemas de um só golpe fulminante, não vai tentar resolver nenhum. Soluções parciais e graduais são inaceitáveis.

Sim, Maurício quer salvar o seu casamento. Mas ele não vai fazer nada para resolver os seus problemas até ter certeza absoluta e a priori de quais são exatamente as suas causas e até ser capaz de solucioná-los de forma imediata e total.

Outro exemplo: Sara era viúva há vinte anos quando conheceu Timóteo e surgiu o interesse mútuo. Ambos se davam bem, seus respectivos filhos aceitavam o relacionamento, tinham condições de se casaram e desejavam isso. Porém, Sara cogitava: “Sim, gosto dele, ele é bondoso, bem informado, trabalhador, administra bem sua vida... mas ele é sapateiro!”.

Sara possivelmente é uma perfeccionista que exige que um pretendente atenda plenamente a todos os seus critérios, sem concessões nem senso de prioridade. Também pode ser viciada em ansiedade excessiva e esteja inventando pretextos para não se casar por medo de não conseguir se adaptar. Ou pode ter outros problemas e/ou cometer outros erros cognitivos. De qualquer forma, em vez de enfrentar seus medos e lidar com eles, ela se entrincheira no vício de depreciar.

O “sim, mas” combina com todos os erros cognitivos. O autodepreciador que rejeita vinte opiniões positivas a respeito de sua nova camisa e foca a única opinião negativa é alguém hipersensível às críticas e aquele veto atingiu seu ponto fraco. Da mesma forma, o vício de depreciar encaixa-se com o catastrofismo, com a paranoia de perseguição, com a superconfiança e com a compulsão de comparar-se.
Qualquer que seja a combinação, o “sim, mas” é perigoso porque elimina o prazer, prejudica os relacionamentos, limita as possibilidades e desencoraja soluções significativas por fazê-lo andar em círculos.

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