Nem todas as comparações doem. O problema maior são as comparações que envolvem
nossa autoestima, nosso autoconceito e nossa autoimagem, aqueles cotejos que entram em nossas áreas
sensíveis e tocam em nossos pontos fracos, em que estamos tentando definir
nossa própria identidade e delimitar nossas questões pessoais.
Às vezes fazemos comparações positivas, ou seja,
favoráveis a nós. Evitamos ficar expressando demais essas comparações para não
sermos tachados de arrogantes. E se as expressamos ou insinuamos, talvez
descubramos que outros não compartilham nossa opinião e podem se sentir
depreciadas, o que pode gerar problemas nos relacionamentos. Mas em geral são
as comparações negativas que nos causam mais sofrimento e são típicas de quem
tem mania de comparar-se.
Se não vivemos isolados em uma ilha
deserta, sempre interagimos com outros e inevitavelmente nos comparamos,
principalmente com determinadas pessoas. Em geral, tendemos a nos comparar com
quem é/faz/tem mais do que nós e nos comparamos pouco com quem é/faz/tem menos
(exceto quando conveniente). Sim, de vez em quando observamos que há pessoas
que estão ou estiveram em situação pior do que a nossa e concluímos que somos
felizardos. E algumas pessoas têm este padrão invertido. Porém, com maior frequência
nos comparamos com quem parece ter mais e possuir aquilo que supostamente nos
falta, em vez de valorizar o que temos.
Também nos comparamos com aqueles que acreditamos
ser nossos concorrentes. Admiramos indivíduos famosos e grandes nomes de
determinados campos e em geral não nos comparamos com eles, pois os
consideramos muito distantes e/ou muito acima de nós. Mas quando um colega de
trabalho ou escola, ou um parente da mesma idade, ou um correligionário, ou
qualquer pessoa que possui um status
parecido com o nosso se destaca, logo nos comparamos com ele.
Fazemos comparações com outros a respeito de
diversos assuntos: uma pessoa tem mais habilidade de interagir com os outros,
outra está sempre motivada e de bom humor, outra tem beleza e carisma, outra
possui uma casa e carro melhores do que os nossos, outro tem uma
família-modelo. Às vezes uma mesma pessoa se destaca em diversos aspectos. E em
alguns casos conhecemos a pessoa há anos, éramos parecidos em certos
pontos-chave, mas neste meio-tempo ela se desenvolveu bem mais do que nós.
Além disso, comparamos quem somos hoje com a visão
que tínhamos de nós mesmos no passado. Não somos mais capazes de realizar tudo
o que fazíamos antes e pode ser difícil aceitar mudanças limitadoras em nossa
vida que talvez nos façam sentir-nos inferiores ao que já fomos. Ou que nos
façam acreditar que os outros nos consideram um perdedor ou um ultrapassado.
Por fim, comparamos aquilo que somos hoje com
nossos sonhos do passado que não se realizaram. Talvez sonhávamos que seguiríamos
determinada profissão e que com certa idade estaríamos fazendo determinado trabalho
em determinada posição. E que teríamos uma casa assim, um carro daquele jeito,
que faríamos certas viagens e assim por diante. Muitos sonharam que teriam um
casamento feliz e duradouro com uma pessoa especial (talvez uma pessoa
específica, uma paixão da juventude).
Porém, nem todos esses sonhos se realizaram, no
todo ou em partes. Mas, em vez de nos concentramos nos aspectos positivos de
nossa vida, só focamos os sonhos não realizados e concluímos que nossa vida
inteira foi um malogro. Somos perfeccionistas, comparando as pessoas reais com
quem interagimos com as pessoas ideais impossíveis de existir; insistimos no
tudo ou nada e terminamos com nada. Idealizamos aspectos do nosso passado e/ou
o ideal de futuro que tínhamos e nada pode ou poderá se comparar àquela
lembrança, o que nos faz nunca nos abrir para novas oportunidades.
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