Artigo de Rodrigo
Constantino
“Democracia e socialismo
não têm nada em comum além de uma palavra: igualdade; Mas note a diferença:
enquanto a democracia procura a igualdade na liberdade, o socialismo procura
igualdade na restrição e servidão.” (Alexis de Tocqueville)
Alexis de Tocqueville
escreveu seu clássico Democracia na América buscando contribuir para a preservação
da liberdade na França, durante a conturbada transição da aristocracia para a
democracia. Apesar do tempo transcorrido, o livro continua atual e válido em
vários aspectos.
Tocqueville reconhece a
importância do caráter nacional americano para a liberdade existente no país, e
dá crédito aos religiosos puritanos pela moldagem desse caráter. Ele nasceu em
1805 em Paris, numa família aristocrática que foi vítima da Revolução Francesa.
Viajou para os Estados Unidos em busca de um escrutínio cuidadoso de todos os
elementos da vida americana. O que ele constatou lhe marcou profundamente, e rendeu
o excelente clássico.
Entre as observações que
fez sobre o país, consta a extraordinária força das associações voluntárias no
dia a dia da vida americana, como uma força social muito mais potente e
extensiva que o Estado. Se os franceses se voltavam para o Estado, e os ingleses
para a aristocracia, os americanos formavam livres associações uns com os
outros quando precisavam ou demandavam alguma coisa. Assim praticavam o
autogoverno. Não dependiam do governo, mas se organizavam para alcançar os
próprios objetivos.
Ele concluiu que a lei da
associação é a primeira lei da democracia. Ele disse: “Entre as leis que
governam as sociedades humanas, há uma que parece ser mais precisa e clara do
que todas as outras. Se os homens devem continuar a civilizar-se ou tornar-se
civilizados, a arte de associação deve crescer e melhorar, na mesma proporção
em que aumentam as condições de igualdade”. Muitos países subdesenvolvidos apresentam
instabilidade política justamente por conta desse problema: a igualdade na
participação política cresce muito mais rápido do que essa “arte de
associação”. Tocqueville foi enfático: “A ciência da associação é a mãe da
ciência; o progresso de todo o resto depende do progresso que ela realiza”.
Os americanos imaginam,
segundo observou Tocqueville, que está em seu próprio interesse fazer contribuições
para o bem-estar comum e o bem público. O futuro deles e de seus próprios
filhos se beneficia disso. O bem público está assim associado ao próprio
interesse de cada um. Não é preciso falar em altruísmo, pois a própria busca da
satisfação dos interesses particulares já leva um povo mais avançado
culturalmente a cuidar dos bens comuns. O americano sente que a coisa pública é
sua também, é de todos.
Disso deriva a defesa de
uma igualdade perante a lei. Isso diverge da postura patrimonialista
predominante no mundo latino por tantos anos, onde o Estado é visto como um bem
privado a ser conquistado para a Grande Família à custa do restante. Enquanto
um americano gritaria para alguém tentando furar fila: “quem você pensa que
é?”, dando ênfase à igualdade das leis, um brasileiro provavelmente gritaria de
volta, caso fosse criticado por furar fila: “você sabe com quem está falando?”,
ressaltando o peso do privilégio.
A importância que o
católico Tocqueville deu ao fator religioso, especialmente o protestante, no
sucesso relativo dos Estados Unidos, foi enorme. Conforme resume Michael Novak
em seu The Universal Hunger for Liberty, seriam basicamente cinco aspectos
mundanos da utilidade religiosa: restrição aos vícios e ganhos na paz social; ideias
fixas, estáveis e gerais sobre as dinâmicas da vida; o foco na questão de
igualdade perante a lei; uma nova concepção de moralidade como uma relação
pessoal com Deus, e, portanto, um motivo para agir de forma correta mesmo
quando ninguém está observando; e, através da elevada honra dedicada ao laço do
matrimônio, uma regulação tranquila das regras no casamento e em casa. Uma rede
de confiança inspirada pela fidelidade, alimentada dentro do lar familiar e
criando filhos felizes, aumentaria as chances de sucesso de um governo
republicano.
Esta visão de cunho
religioso se aproxima mais daquilo que os conservadores costumam defender, não
necessariamente alinhado com o que os liberais pregam. Mas isso não impede que
liberais reconheçam na instituição familiar um importante aliado na construção
de uma sociedade de confiança, ainda que as bases para tanto não dependam necessariamente
do aspecto religioso. O pensador mais famoso em fazer esta ligação causal entre
religião e sucesso capitalista foi o sociólogo Max Weber, ressaltando a importância
da ética protestante, particularmente a calvinista, no espírito do capitalismo.
A predestinação e a consequente interpretação do êxito material como prova da
graça divina seriam estimulantes poderosos.
Na obra de Tocqueville a
escravidão é duramente criticada. Para ele, ela desonra o trabalho, introduz
ociosidade na sociedade, ignorância e orgulho, pobreza e luxúria. A distinção
entre o sul e o norte dos Estados Unidos poderia ser explicada, em parte, pela
influência da escravidão no sul. As bases da teoria social americana estariam
presentes, segundo Tocqueville, no norte do país, cujos primeiros imigrantes
pertenciam a classes prósperas no país de origem. Praticamente todos tinham
recebido educação avançada, e esses imigrantes teriam levado junto boa dose de
ordem e moralidade.
Mas, acima de tudo, o
espírito de empreendedorismo era a marca registrada deles, em contraste com os
demais imigrantes. Não haviam abandonado o país de origem por necessidade ou à
força, e deixaram para trás posições sociais invejáveis. Estavam em busca de
satisfação intelectual, do triunfo de uma ideia, da liberdade. Não aceitavam a
perseguição religiosa da terra natal de forma alguma. Este berço faria toda a
diferença depois, na fase adulta da nação.
“Eu penso que não existe um
país no mundo onde, em proporção a população, existe tão poucas pessoas
ignorantes como na América”, escreveu Tocqueville. A educação primária estava
ao alcance de todos. A maioria dos ricos começou como pobres lá, prosperando
por conta própria. Era a terra das oportunidades. Na juventude, eram homens ocupados
com o trabalho, portanto. Enquanto tinham gosto para os estudos mais profundos,
não tinham tempo, e quando conseguissem o tempo, teriam perdido o gosto. Na
América, certo nível comum de conhecimento foi estabelecido, o qual todas as
mentes alcançavam.
Em outras palavras,
surgia uma enorme classe média. O elemento aristocrático, por outro lado,
sempre fraco desde o começo, foi praticamente destruído, sem ter praticamente
influência alguma no curso dos acontecimentos. Entende-se então um dos motivos
pelos quais alguns europeus, especialmente franceses, alimentaram ressentimento
pelo país. Insistem que se trata de um povo de “bárbaros”, pois no fundo não
suportam a ideia de que o título hereditário de nobreza não vale mais nada lá.
Ainda hoje é possível verificar resquícios disso, pela animosidade que gera o
fato de o homem mais rico do mundo ser apenas certo Bill, que abandonou a
universidade para empreender.
Com todas as suas
imperfeições – muitas inclusive agravadas desde então, o fato é que a
construção dos Estados Unidos tem muito a ensinar para o mundo. Analisar as
raízes do sucesso americano, observando o que pode ser replicável mundo afora,
separando as idiossincrasias dos valores universais, é trabalho que agrega
muito valor na busca da liberdade e do progresso. Alexis de Tocqueville deu um
pontapé inicial nesse esforço. O resultado foi um excelente estudo que ainda
serve como base para muitas conclusões importantes. Entre elas, destaca-se a livre
associação entre indivíduos, independente do mecanismo estatal.
FONTE:
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