sexta-feira, 22 de agosto de 2014

PEC- Psicoterapia Estrutural e Construtivista (Guidano & Liott)

Guidano e Liott concluíram que, para se entender a complexidade dos transtornos emocionais e desenvolver um modelo adequado de psicoterapia é fundamental ter um entendimento do papel da visão do indivíduo de si mesmo e do mundo, que coordenam suas emoções e comportamentos.
 
Esse modelo baseia-se em grande parte na teoria do apego de Bowlby e sugere que as relações com pessoas significativas determinam o desenvolvimento da autoimagem da criança e proporcionam um reforço contínuo dessa autoimagem. Pressupõe que a definição do self coordena e integra o crescimento cognitivo e a diferenciação emocional. Se o autoconceito é distorcido ou rígido, o indivíduo não consegue assimilar as experiências da vida de forma efetiva, o que leva ao desajuste e perturbação emocional e produz a disfunção cognitiva. Também pressupõe que os padrões anormais de apego correspondem a diferentes síndromes clínicas.
 
A formulação original da PEC foi ampliada com a ideia de que os comportamentos problemáticos são consequências da organização cognitiva do indivíduo. O paciente luta para manter sua organização cognitiva disfuncional diante de um ambiente continuamente desafiador. Assim, o objetivo da PEC é modificar essas estruturas cognitivas, começando dos níveis mais superficiais e indo gradualmente para os mais profundos.
 
É semelhante ao modelo de Beck, com a diferença de que enfatiza uma filosofia pós-racionalista. Enquanto Beck e outros mantêm o pressuposto de que existe um mundo externo que pode ser percebido com diferentes graus de exatidão, Guidano foi ficando cada vez menos interessado no “valor verdade” das estruturas cognitivas e mais na “validade” (coerência interna) dessas estruturas.
 
A PEC visualiza a psicoterapia como processo estratégico análogo à abordagem empírica do método científico. O paciente é treinado para considerar suas crenças como hipóteses e teorias sujeitas à contestação, confirmação e desafio lógico, utilizando-se para isso o arsenal de técnicas cognitivas e comportamentais. O estágio final do processo terapêutico é uma revolução intrapessoal, na qual o paciente rejeita as suas antigas visões de si mesmo e do mundo e entra em um estado de transformação, estabelecendo um sistema de crenças mais adaptativo.
 
As semelhanças entre as abordagens cognitivas racionais e pós-racionais (construtivistas) são grandes, mas as distinções também são importantes. A terapia construtivista vê o indivíduo como cientista pessoal imperfeito que utiliza constructos cognitivos para extrair sentido das experiências e fazer escolhas. Há menos foco no conteúdo e mais no processo de encontrar sentido nas experiências e conexão entre elas. Consequentemente, a PEC dedica-se menos a exercícios corretivos do pensamento e mais em exercícios facilitadores do pensamento e da produção de significados.
 
Assim, a PEC tem afinidade com a filosofia hermenêutica e com as abordagens narrativas da psicologia. Mas dentro do construtivismo existem linhas mais moderadas e linhas mais extremistas. Nestas, adota-se a posição de que a realidade existe apenas na mente do indivíduo e o único critério de saúde mental seria a coerência desse modelo. Neste extremo, a ligação entre a PEC e as demais TCC começa a se desvanecer, talvez nem podendo mais ser considerada uma delas.
 
 
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