Um dos críticos mais poderosos é o “senhor Todo Mundo”. É difícil imaginar algo pior do que “todo mundo” achar que você é um idiota. Como não aceitar um veredicto emitido por “todo mundo”? Porém, a verdade é que o “todo mundo” não existe. Pode haver consenso geral sobre certos assuntos (o que permite uma vida em sociedade organizada o suficiente para ela existir). Mas não existe consenso absoluto sobre nenhuma crença ou valor, como atesta a necessidade de haver presídios.
Entretanto, aceitamos a existência do “todo mundo” e nos submetemos ao seu poder sem questionar. Quando criança, Carina espirrou de forma engraçada na classe e seus colegas riram; daí durante anos ela conteve seus espirros diante de outras pessoas com medo de “todo mundo” rir dela. Mas neste caso quem era o “todo mundo”? Um grupo de crianças como Carina era, em um lugar e momento específicos, ao qual ela deu um poder muito maior e mais duradouro do que a suposta crítica merecia.
Quando mais jovem, Roberto sofria de um tique nervoso que o fazia arrancar pelos do corpo e por isso acabou ficando com uma grande área calva no seu antebraço peludo. Essa característica o incomodava tanto que ele só se sentia bem com camisas de manga longa que escondiam seu antebraço, por medo de “todo mundo” ver e comentar.
Mas o fato é que a maioria das pessoas vive tão absorta nos seus próprios pensamentos e atividades que nem notam o que se passa em volta. Ou reparam em algo, mas não dão a mínima e esquecem logo em seguida, mais interessados em outros assuntos. E se alguém visse essa área no antebraço de Roberto e perguntasse a respeito, ele não precisa necessariamente tomar isso como um ataque, apenas uma curiosidade. E não é “todo mundo”, é apenas uma pessoa. Então poderia escolher entre explicar ou apenas dizer algo como “sempre foi assim” e mudar de assunto. Os esforços de Roberto para esconder seu antebraço atrapalham sua vida social e (ironicamente) chamam mais a atenção do que se agisse de forma natural.
Por outro lado, os preconceitos e a tendenciosidade são fatos da vida e muitos podem nos criticar por causa da nossa etnia, opção religiosa, origem geográfica ou sociocultural, características físicas e outros fatores. Por exemplo, um preconceito socialmente aceito e estimulado é a misandria, o ódio e desprezo contra o gênero masculino.
Mas as perguntas-chave continuam valendo: Quem disse? Só porque disseram, tenho que acreditar? O que ele/ela realmente sabe? É uma crítica baseada em fatos e em princípios ou é apenas uma arbitrariedade? Será que não há algum outro motivo oculto, como sentir prazer por me fazer sentir-me inferior ou se beneficiar por eu desistir de um direito ou objetivo?
Mas as perguntas-chave continuam valendo: Quem disse? Só porque disseram, tenho que acreditar? O que ele/ela realmente sabe? É uma crítica baseada em fatos e em princípios ou é apenas uma arbitrariedade? Será que não há algum outro motivo oculto, como sentir prazer por me fazer sentir-me inferior ou se beneficiar por eu desistir de um direito ou objetivo?
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Para muitos, o pior de todos é o nosso crítico interior. Ele não só aceita prontamente todas as críticas feitas por outros como ainda acrescenta mais, mesmo que tenha que aumentar ou inventar. Seu mote é “Eu não presto para nada e tem algo de errado com quem discorda disso”. Ou como disse Groucho Marx: “Eu jamais faria parte de um clube que me aceitasse como sócio”. O crítico interno do hipersensível focaliza-se e amplia obsessivamente uma característica que considera negativa e anula quaisquer outros atributos que a pessoa tenha.
Aceitar sem questionar tudo o que o nosso crítico interior nos diz é tão equivocado quanto aceitar toda e qualquer crítica de outras pessoas sem verificar antes a validade e a motivação delas. Você pode estar sendo preconceituoso contra si mesmo sem perceber, o que o leva a desperdiçar oportunidades e causar problemas desnecessários.
Nos anos 1960, os líderes da luta pelos direitos civis nos EUA perceberam que apenas parte de sua luta para obter equidade legal para os negros consistia em convencer a maioria branca. A outra parte consistia em convencer os membros de sua própria minoria. Assim, fizeram campanhas que visavam também os críticos interiores dos próprios negros, que reproduziam as opiniões em geral da sociedade da época.
Como questionamos nosso crítico interior? Se você se perguntar “Como é que eu sei?”, a resposta será uma suposição sem base ou que “todo mundo” pensa isso de você. Mas precisamos de provas concretas e raciocínios sólidos, baseados em fatos e em princípios.
Também recorra a outros que compartilham sua situação para aprenderem uns com os outros e apoiarem-se mutuamente. Muitos que possuem um severo crítico interior sofrem adicionalmente por acreditarem que são a única pessoa no mundo que tem aquele problema e/ou que cometeu certo erro. Mas a prova de que existem outros com dificuldades parecidas é a proliferação de livros e outras fontes, além de grupos de apoio e outras entidades para auxiliar pessoas com problemas semelhantes.
Constatar que outros passam desafios parecidos pode proporcionar alívio e uma fonte de orientação e encorajamento. Porém, a intenção NÃO deve ser reforçar o complexo de vítima e de impotência, arranjar companheiros para juntos lamentar a vida e acusar terceiros. O objetivo é o cultivo de coragem para mudar aquilo que pode ser modificado, serenidade para aceitar o que não pode ser alterado e sabedoria para perceber a diferença.
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