quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Hipersensibilidade (5/6): Reaja Estrategicamente

Claro que é mais agradável receber elogios do que críticas, mas existem críticas válidas que podem contribuir para o nosso aperfeiçoamento. E também há críticas que pretendem ser construtivas, mesmo que acabem não sendo. Então como reconhecer uma crítica construtiva? O primeiro passo é concentrar-se no que de fato foi dito (ou no que se tentou dizer, caso a pessoa tenha se expressado mal).
  
Quando qualquer crítica, válida ou inválida, toca um dos nossos pontos fracos, nossa tendência é aumentar o que foi dito e atribuir motivações negativas à pessoa. Metaforicamente, ela disse apenas “A” e nós entendemos “ABCDEFGHIJ...” Se em vez de nos deixarmos levar pelas emoções despertadas, muitas vezes de antigas experiências sem ligação com a realidade do momento, nós nos concentrarmos no que exatamente foi dito, teremos condições de responder de forma gentil e assertiva, sem defensividade e contra-ataques.
  
Devemos analisar objetivamente o que foi dito de fato. A pessoa pode estar certa, pode estar errada ou pode estar parcialmente certa. A crítica pode basear-se em fatos ou em especulações com diversos graus de acerto possíveis. Pode basear-se em princípios ou em meras preferências pessoais. Então poderemos concordar com a crítica (como um todo ou em parte) e/ou discordar parcial ou totalmente da solução proposta, tudo educadamente, sem defensividade nem atitude de desculpas.
  
E podemos agradecer a crítica e dizer que vamos pensar sobre isso e decidir depois. Essa atitude evita reações emocionais e precipitadas, seja aceitar passivamente, seja replicar de forma brusca, ou seja a reação qual for. Damos a nós mesmos tempo para refletir calmamente sobre a crítica e o seu autor, separando as críticas construtivas das inúteis ou destrutivas e separando os críticos de acordo com sua motivação e fundamentação. Fica mais fácil evitar reações automáticas e podemos elaborar melhor nossa resposta, em palavras e/ou em ações (o que inclui a alternativa do silêncio).
    
Há vários tipos de respostas possíveis:
  
  
1- Podemos simplesmente rejeitar a crítica
Se o crítico em questão for alguém que não vale a pena ouvir e sua crítica é destrutiva, o melhor provavelmente é ignorar e prosseguir. Alguns parecem sentir prazer em criticar severamente (mesmo que seja de forma “calma”), de condenar, colocar defeitos no que os outros fazem e pôr em dúvida as motivações deles e nunca ficam satisfeitos: seja o que for que façamos ou deixemos de fazer eles criticam, ainda que a nova crítica seja o oposto de críticas anteriores em uma clara autocontradição. A única forma de vencer esse jogo é não entrando nele. Faça o seu melhor e ignore esse tipo.
 
Muitos podem ter dificuldade em aplicar essa sugestão. Aprenderam na infância a escutar o que os mais “adultos” dizem. Temem serem rejeitados pelo crítico se não o ouvirem. Ou que este recorra a estratégias de manipulação mais pesadas. Esse tipo de pessoa sabe identificar e atacar os pontos fracos, assim como um bom pescador sabe escolher a isca para pegar cada tipo de peixe. Quanto mais o peixe se debate depois que mordeu a isca, mais divertido é para o pescador. Portanto, aprenda a não morder a “isca”. Escolha outras alternativas de pensamentos, sentimentos e ações. Responda apenas uma vez para informar sua decisão, de forma clara, gentil e assertiva, encerre o assunto e ignore as “iscas”.
 
 
2- Podemos aceitar e rejeitar a crítica ao mesmo tempo
Há críticas que temos que ouvir por causa das circunstâncias, como as críticas feitas por um chefe. Não, ele nem sempre está certo, objetivamente falando. Mas ele é o principal responsável pela equipe de trabalho e a decisão final é dele. Em alguns casos não é nem uma questão de certo e errado, ou de melhor e pior, mas apenas uma questão de gosto pessoal. Em outros casos, um chefe pode se expressar de forma desagradável; se estiver dentro dos limites aceitáveis, podemos nos concentrar no conteúdo objetivo (“faça X em vez de Y”) e relevar a negatividade com que ele se expressou.
 
Porém, o problema de algumas pessoas é que elas consideram uma questão de honra corrigir toda e qualquer crítica errada que recebam – ou pelo menos aquelas que atingem seus pontos fracos. Um motorista passa o sinal amarelo; um policial o contata e diz que não vai multá-lo por ter ultrapassado o sinal vermelho, mas que preste mais atenção; em vez do motorista ouvir pacificamente e prosseguir, ele inicia uma calorosa discussão.

Claro que seria diferente se o motorista recebesse uma multa injusta, mas ainda assim há modos apropriados de se resolver problemas. Ninguém é obrigado a abaixar a cabeça e aceitar todas as críticas injustas, nem a corrigir a todas as críticas que considerar injustas. Podemos escolher quais batalhas entrar, entrando em algumas e ignorando outras.
  
Um rapaz de nível socioeconômico baixo deseja fazer faculdade. Porém, parentes e amigos esperam que ele faça um trabalho que requer pouca instrução e que o mais rápido possível se case e tenha vários filhos “como todo mundo”. Ele tem uma decisão a tomar. Caso escolha cursar uma faculdade, essas pessoas podem intrigar-se, zombar e criticar para dissuadi-lo, dizer que é uma tolice e/ou que ele não tem capacidade. Assim, é uma opção consciente de atrair críticas e ao mesmo tempo ignorá-las.
 
  
3- Podemos minimizar os efeitos cercando-nos de pessoas como nós
É realidade que muitos desconfiam e criticam aqueles que são diferentes deles em certos aspectos. Uma alternativa é nos aliarmos a outras pessoas com estas características criticadas, seja em um grupo de apoio, ou associando-nos a alguma instituição, ou fazendo um tipo diferente de trabalho, ou indo morar em outro bairro, ou de outra forma.
  
"Mas por que temos que nos cercar de pessoas como nós, em vez de insistir que os outros nos aceitem como somos?" Você não é obrigado a procurar a companhia de pessoas parecidas com você, é apenas uma sugestão. Também pode decidir que compensa lutar para convencer nossos críticos a nos aceitarem. Talvez possa encontrar uma alternativa intermediária.
   
Porém, de qualquer forma, você precisa encontrar orientação e apoio na sua luta e contar com pelo menos um oásis de aceitação. E isso em geral você só obtém associando-se com pessoas com características parecidas e que enfrentam os mesmos desafios. 
   
    
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