sábado, 22 de fevereiro de 2014

Fundamentos Históricos da TCC (1/2)

A psicologia como senso comum ou como filosofia existe desde o começo do ser humano, mas como ramo científico surgiu no século XIX. O primeiro laboratório de pesquisa psicológica foi fundado pelo fisiológico alemão Wilhelm Wundt em 1879 para estudar os processos básicos da percepção e da cognição. Seus alunos divulgaram a nova ciência e fundaram laboratórios similares na Europa e nos Estados Unidos.

Wundt buscou lançar uma base científica realizando experimentos para obter dados sistemáticos e objetivos que poderiam ser replicados por outros pesquisadores. Dedicou-se a estudar reações simples realizadas sob condições controladas. O objeto de Wundt foi estudar a estrutura consciente da mente e do comportamento, sobretudo as sensações. Seu método foi chamado de “Estruturalismo” por seu aluno Edward Titchener, pois estudava a estrutura da mente e do comportamento.

Enquanto isso, o médico Sigmund Freud (1856-1939) elaborou teorias sobre a psique e o comportamento humano a partir dos seus trabalhos com pacientes psiquiátricos, mas que também seriam válidas para pessoas “normais”. Para a Psicanálise, o comportamento é motivado pela tensão entre os instintos no interior da pessoa e as exigências sociais em seu exterior; a natureza humana nem sempre é “racional” e suas ações podem ser movidas por fatores inacessivelmente inconscientes; a infância é uma fase importantíssima na formação da personalidade.

A teoria original de Freud foi posteriormente ampliada ou modificada por outros autores e não surgiu de experimentos em laboratórios, mas da sua capacidade de observação, bagagem cultural e motivação para descobrir o funcionamento da psique.

Em 1890 o médico e filósofo americano William James publicou seu livro “Os Princípios da Psicologia”, mais centrado na função da mente humana e dos processos mentais conscientes do que na sua estrutura. James concordava que o objetivo da psicologia era estudar os processos conscientes, mas estes estudos não deviam se limitar à descrição de elementos, conteúdos e estruturas, pois a mente é um fluxo constante em contínua interação com o ambiente. A psicologia deveria estudar também as emoções, a vontade, os valores, tudo que caracteriza o ser humano. Por isso o seu método foi chamado de “Funcionalismo”. Em 1900 a psicologia já era uma ciência estabelecida e havia mais de 40 laboratórios na América do Norte.

Um dos métodos de Titchener era a introspecção, mas esta foi criticada por ser reducionista, simplista, mentalista e não-científica. Assim, nos EUA nascia o “Behaviorismo Metodológico” de Watson, focado em estudar o comportamento observável do ser humano em sua relação interdependente com os estímulos do ambiente, suas reações e as consequências destas.

Os padrões de comportamento surgem ao serem selecionados pelo organismo por sua função mais adaptativa. No ser humano há três níveis de seleção: filogenético (espécie), sociogenético (contexto cultural) e ontogenético (histórico individual). A Análise do Comportamento baseia-se em estudos empíricos rigorosos com animais para estudar os princípios do condicionamento. Aceita a existência da subjetividade, mas a considera um fenômeno sujeito às mesmas leis que regem o comportamento observável. Assim, mente e organismo são interdependentes.

Mais tarde a Análise do Comportamento foi ampliada por Skinner, que iniciou o “Behaviorismo Radical”. Este “radical” é no sentido etimológico de “raiz”, pois o comportamento (a interação do indivíduo com o ambiente) seria o fundamento da Psicologia. Skinner introduziu o conceito de “condicionamento operante” e realizou muitas descobertas de princípios comportamentais. Outros pesquisadores entraram no campo e o behaviorismo se tornou a força dominante da Psicologia nos EUA. Foram desenvolvidas formas de psicoterapia comportamental e a análise do comportamento é muito utilizada nos estudos de farmacologia e de neurociências

Assim, chegamos às décadas de 1950-60 com duas correntes dominantes na Psicologia: a Psicanálise e o Behaviorismo. Uma focada a dinâmica entre as forças psíquicas dentro do indivíduo; a outra estudava empiricamente a interação observável do organismo com o seu ambiente.

Embora o Behaviorismo teoricamente não rejeitasse a subjetividade e até tratasse dos pensamentos e sentimentos como “comportamentos encobertos”, os behavioristas pareciam menosprezar todas as considerações por fatores psíquicos como “mentalismo” e até “misticismo”. Também apresentavam (de forma implícita ou explícita) uma visão limitada do ser humano como mero fantoche do destino. E embora os teóricos behavioristas rejeitem a coerção e o uso indevido de punições, muitos leigos e especialistas entendiam o contrário disso.

Uma reação ao Behaviorismo foi a Psicologia da Gestalt, dedicada ao estudo dos processos de percepção e defendendo que os fenômenos psíquicos só podem ser compreendidos se forem vistos como um todo integrado e não através do estudo de suas partes divididas e separadas. A palavra “gestalt” significa “forma”, “formato”, “configuração”, “todo”. O seu lema é “O todo é maior do que a soma das suas partes”. A psicologia da gestalt é distinta da gestalt-terapia fundada mais tarde.

Os psicanalistas também recebiam críticas pelo foco excessivo nas psicopatologias e por também apresentarem uma visão limitada do ser humano como mero fantoche do destino. Uma reação à Psicanálise e ao behaviorismo foi o surgimento a partir da década de 1950 da perspectiva Humanista/Existencial, que apresenta o ser humano como um ente autônomo, autoconsciente e com tendência à autorrealização.

Em vez de focar apenas um aspecto da pessoa, essa abordagem psicológica procura ver o indivíduo como um todo integrado e descobrir como ele vivencia e entende sua experiência atual, como ele se relaciona consigo mesmo, com os outros e com o mundo. Importantes pensadores dessa abordagem foram Abraham Maslow e Carl Rogers. Utilizam conceitos de filósofos existenciais como Kierkegaard, Heidegger e Sartre, entre outros

Outra reação às limitações do Behaviorismo e da Psicanálise foi o nascimento da Psicologia Cognitivo-Comportamental a partir das décadas de 1950-60. O foco dessa perspectiva são os processos cognitivos na interação do indivíduo com o ambiente: processos de memória, imaginação, interpretação, crença, decisão, etc. O comportamento pode ser ajustado à realidade através da intervenção nestes processos na forma de reflexão e do planejamento de metas e tarefas específicas.


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