sábado, 15 de fevereiro de 2014

Relação Ponderada com a Tecnologia


Todos nós nos refugiamos na ficção para escapar da realidade e acabamos confundindo fantasia com realidade. A questão é o quanto fazemos isso e em que grau. Buscamos a ficção em nossos sonhos pessoais, relacionamentos, nas celebridades, no entretenimento, na religião, no cientificismo e assim por diante. Uma das razões de se fazer psicoterapia é aprender a lidar com a realidade em vez de fugir dela.

Essa situação não é nova, acompanha o ser humano de diferentes formas desde que ele existe. As pessoas de 5000 anos atrás tinham a mesma estrutura neurológica e as mesmas necessidades básicas do que nós. No decorrer da História, os povos criaram muitas mitologias com pontos em comum, que refletem as experiências e angústias que todos vivenciamos de algum modo ou de outro.

Sempre foi necessário lidar com certos dilemas. Um deles é a adaptação às mudanças socioculturais e econômicas que sua comunidade está passando. Sempre há os que resistem, mas alguma adaptação aos novos tempos e modelos acaba sendo inevitável. A diferença é que as mudanças parecem ser mais rápidas e alcançamos níveis tecnológicos inéditos.

Somos constantemente persuadidos a adquirir novos produtos e serviços (muitos sem real necessidade), além de novos conceitos e hábitos, alguns dos quais talvez transijam os valores que tínhamos. E apresentamos comportamentos incoerentes, como usar a escada rolante ou o elevador para chegar até na academia e nos exercitar. O celular e outros aparelhos permitem contatar qualquer pessoa distante, mas muitas vezes nos isolam das pessoas ao nosso redor.

Como indivíduos e como espécie, nos tornamos dependentes da tecnologia que criamos. A informática está sempre presente em nossa vida, ainda que não tenhamos computador nem celular. Sem a agricultura moderna, a população mundial seria menos de 10% do que é hoje. E a tecnologia se tornará cada vez mais onipresente em nosso cotidiano, influenciando ainda mais o nosso modo de pensar e agir. O resultado é que temos cada vez mais informações disponíveis (a maioria pouco ou nada útil, ou mesmo deturpada), mas temos pouco conhecimento genuíno e ainda menos sabedoria.

Muitos só enxergam duas alternativas opostas e antagônicas: ou nos livramos da tecnologia e retornamos a um modo de vida primitivo, ou nos entregamos passivamente de vez a ela e usufruímos suas benesses (além de pagar o custo humano dessa decisão).

A primeira alternativa é inviável, pois somos intrinsecamente tecnológicos. E a segunda também, pois o preço é alto demais. A terceira alternativa é preservar a valorização de princípios atemporais e utilizar a tecnologia como uma ferramenta para facilitar nosso trabalho e usufruir nossa vida. Para lidar bem com isso, precisamos utilizar melhor os quatro grandes processadores do conhecimento humano: a filosofia, a ciência, a arte e a religiosidade.

A diferença entre remédio e veneno muitas vezes é o tamanho da dose. Ou sua aplicação correta ou errônea. Mesmo algo bom em si mesmo, se usado em excesso ou de forma inadequada, vai nos prejudicar. Essas verdades certamente valem para a tecnologia. Precisamos usá-la como ferramenta para aumentar o nosso autoconhecimento e autodesenvolvimento, em vez de permitir que seja um obstáculo.



* * *

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Envie-nos seu comentário inteligente e educado: