sábado, 22 de fevereiro de 2014

Fundamentos Históricos da TCC (2/2)


 
As terapias cognitivo-comportamentais são consideradas um desenvolvimento da terapia comportamental, apesar de dois de seus mais importantes pioneiros (Albert Ellis e Aaron Beck) terem sido psicanalistas. A principal distinção das terapias comportamentais é a incorporação da perspectiva mediadora da cognição entre os estímulos ambientais e o comportamento do indivíduo. Essa incorporação ocorreu principalmente durante o final da década de 60 e a primeira metade da década de 70. Diversos fatores contribuíram para esse desenvolvimento e até o exigiram.

O modelo psicanalítico da personalidade e da terapia sofreu críticas em relação à sua ênfase excessiva nos processos inconscientes e na excessivamente longa e trabalhosa duração das terapias. Além de discordâncias filosóficas dos teóricos cognitivos com a psicanálise, as pesquisas demonstravam que a terapia tradicional não era notavelmente efetiva. E havia carência de pesquisas científicas.

Embora a abordagem comportamental tenha sido a força dominante da Psicologia nos EUA durante muito tempo, estava cada vez mais claro que uma perspectiva imediata (os estímulos causam diretamente as reações comportamentais, sem mediação) era insuficiente para explicar o comportamento humano. As teorias de aprendizagem por observação e de adiamento da gratificação desafiavam a explicação behaviorista tradicional. Os modelos comportamentais de aprendizagem da linguagem também sofriam sérias críticas. Um sinal da insatisfação geral foi a tentativa de incluir no modelo behaviorista os “comportamentos encobertos” (pensamentos, sentimentos, imagens mentais). Não era possível focar apenas o ambiente sem considerar a cognição.

A própria natureza de alguns problemas (como o pensamento obsessivo) tornava as intervenções não-cognitivas irrelevantes. A terapia behaviorista era aplicada a transtornos que fossem demarcados por seus correlatos comportamentais. Além disso, quando os transtornos eram multifacetados, os terapeutas behavioristas buscavam modificar os sintomas comportamentais. Esse enfoque no comportamento ampliou o potencial terapêutico, mas componentes importantes dos problemas não estavam sendo tratados. O desenvolvimento da TCC ajudou a preencher uma lacuna técnica.

Alguns modelos de mediação estavam sendo desenvolvidos, pesquisados e aplicados na psicologia experimental a partir da compreensão da cognição como uma processadora de informações. Esses avanços foram aplicados na psicologia clínica. Estudos demonstraram que (p/ex) a ansiedade envolve mediação cognitiva. Os avanços nestas duas áreas desafiaram os teóricos behavioristas a explicar os dados acumulados, a redefinir seus limites e a incluir fenômenos cognitivos nos modelos comportamentais. Sinais dessas tentativas foram a literatura sobre autocontrole e autorregulação na década de 70, que compartilhavam o conceito de que o indivíduo tem capacidade de monitorar seu próprio comportamento, estabelecer objetivos e orquestrar as variáveis pessoais e ambientais para alcançá-los.

Outro aspecto do início das terapias cognitivo-comportamentais foi a identificação de diversos teóricos e terapeutas renomados com essa orientação (como Ellis, Beck e outros), o que gerou um zeigeist (mentalidade da época) que chamou a atenção de mais profissionais para o campo. Em 1977 surgiu um periódico nos EUA para comunicar e estimular as pesquisas cognitivas, permitindo que mais pesquisadores e terapeutas apresentassem suas ideias entre si e para o público em geral.

A publicação de estudos que indicavam os tratamentos cognitivo-comportamentais tão ou mais efetivos do que as abordagens estritamente comportamentais também atraiu interesse continuado. Diversas pesquisas demonstraram o efeito clínico positivo da TCC.

Um fator que estimulou o interesse no estudo da cognição foram os avanços tecnológicos na informática, na robótica e na automática, junto com os importantes progressos nas neurociências. Os computadores da década de 1970 eram geringonças enormes e com capacidade inferior à dos celulares atuais. Mas ainda assim, eles já eram mais versáteis do que algumas teorias psicológicas afirmavam que a psique humana seria. Ou o ser humano havia inventado uma máquina mais inteligente do que ele mesmo, ou havia algo de errado com essas teorias. A metáfora do cérebro como um computador (processador de informações) fascinava especialistas e leigos. A psicologia cognitivo-comportamental era uma ideia cujo tempo chegou.



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