sábado, 8 de fevereiro de 2014

Sócrates e a Autoconfiança (2/2)

Sócrates foi mais longe na analogia e inventou o Método Socrático de Raciocínio. Diferenciou cinco passos necessários para se desenvolver uma boa ideia através do raciocínio sistemático:


(1) Procure afirmações definidas como senso comum: “Os melhores empregos têm os melhores salários” ou “a felicidade vem do casamento”;

(2) Procure exceções: É possível ser casado e infeliz ou ter um alto salário em um péssimo emprego?

(3) Se houver uma exceção, a afirmação deve ser falsa ou inexata;

(4) Tente ajustar a afirmação de modo a considerar as exceções: Sabemos que é possível ser infeliz em um trabalho que é bem remunerado, mas desinteressante, e em um casamento inadequado.

(5) Continue com esse processo buscando exceções para as afirmações de senso comum: A verdade, até onde se pode compreendê-la, está nas afirmações formuladas de maneira tal que não podem ser refutadas.

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Agindo dessa forma, produziremos ideias confiáveis e sem falhas, assim como o ceramista habilidoso faz vasos resistentes e perfeitos. A ideia do Método Socrático é nos tornar menos passivos, menos propensos a seguir os outros cegamente. Se discordarem de nós, não precisaremos dizer “estou certo, mas não sei o porquê”. Demonstraremos nossas ideias através da lógica, e se os outros ignorarem a lógica não precisaremos nos irritar.

Muitos acreditam que não podemos ser pensadores sem termos estudado Filosofia, lido bastante, frequentado uma Faculdade. Mas Sócrates acreditava que todos de modo geral podem ser pensadores. Mais que isso, que não apenas podem pensadores, mas tem a responsabilidade de sê-lo. Ele disse: “a vida sem reflexão não vale a pena ser vivida”.

Sócrates fez da ideia de refletir sobre a vida algo aceitável e alcançável e propõe que tenhamos conversas filosóficas em qualquer lugar, até mesmo em uma esquina, e não apenas em locais especiais como dentro de universidades. Conversava com todo tipo de pessoa e gostava de lhes demonstrar que eram capazes de formar opiniões embasadas.

É uma ideia inspiradora. Mas, a respeito da sociedade atual, ele diria que somos muito propensos a seguir as opiniões dos outros, independente delas serem embasadas ou não. Apesar de acreditar que todos somos capazes de refletir, ele sabia que a maioria não o faz, e por isso não aceitava que todas as opiniões tivessem o mesmo valor, assim como nem todas as cerâmicas têm a mesma qualidade.

Assim, por estranho que pareça por Sócrates ter vivido no berço da democracia, ele tinha restrições ao processo democrático, pois se recusava a aceitar que uma opinião fosse certa só porque era a da maioria. E consideraria ridículo as pessoas no poder serem orientadas por pesquisas de opinião como muitas vezes acontece hoje. Para Sócrates, o que importava é se um argumento é lógico e sensato. É assim que se deveria tomar decisões, e não de acordo com a maioria.

Acreditar no erro da maioria e ter certeza do próprio acerto pode ser um grande desafio, especialmente com a subsistência em jogo. Podemos e devemos fazer o esforço de compreender como os demais pensam. Mas também temos que enxergar o mundo com os próprios olhos. Temos que respeitar as opiniões dos outros, mas compreender e respeitar não significa adotar uma ideia sem bons critérios.

Perceber que certas ideias não têm fundamento e discordar da maioria pode ser frustrante e custar caro. Mas, se somos conscientes, não temos escolha a não ser prosseguir. E talvez a situação perdure. Mas o importante é o efeito positivo na nossa autoestima: sabemos e sentimos que agimos certo.

Em uma manhã de março, Sócrates foi julgado e condenado à morte por um tribunal de quinhentos jurados em Atenas, acusado de corromper a juventude e desrespeitar os deuses. A atmosfera era hostil a Sócrates desde o começo: desconfiavam de Sócrates e muitos dos jurados haviam sido questionados por ele e não estavam do seu lado.

Enfrentava a possibilidade de morrer, mas manteve a calma. Disse: “se eu tivesse tempo para argumentar, atenienses, provar-lhes-ia a justiça de minha causa”. E aceitou seu destino de forma fatalista: morrer tomando um copo de veneno. Mas as suas ideias e a sua mensagem para a Humanidade ainda vivem. Seu exemplo nos deu um forte símbolo de coragem e inteligência contra a opinião da maioria.

Sócrates morreu pelas suas ideias. Até onde você iria pelas suas? Poucos de nós terão que enfrentar a morte por nossas ideias. Porém, Sócrates nos mostra que temos a capacidade e o dever de não seguir opiniões passiva e cegamente. Devemos desenvolver ideias nas quais realmente acreditamos. Apesar de relutarmos em perceber, somos todos capazes da transição de ovelhas a seres pensantes.


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