Sócrates foi mais
longe na analogia e inventou o Método Socrático de Raciocínio. Diferenciou
cinco passos necessários para se desenvolver uma boa ideia através do raciocínio sistemático:
(1) Procure
afirmações definidas como senso comum: “Os melhores empregos têm
os melhores salários” ou “a felicidade vem do casamento”;
(2) Procure exceções: É possível ser casado e infeliz ou ter um alto
salário em um péssimo emprego?
(3) Se houver uma exceção, a afirmação deve ser falsa ou inexata;
(4) Tente ajustar a afirmação de modo a considerar as exceções: Sabemos
que é possível ser infeliz em um trabalho que é bem remunerado, mas
desinteressante, e em um casamento inadequado.
(5) Continue com esse processo buscando exceções para as afirmações de
senso comum: A verdade, até onde se pode compreendê-la, está nas afirmações
formuladas de maneira tal que não podem ser refutadas.
* * *
Agindo dessa
forma, produziremos ideias confiáveis e sem falhas, assim como o ceramista
habilidoso faz vasos resistentes e perfeitos. A ideia do Método Socrático é nos
tornar menos passivos, menos propensos a seguir os outros cegamente. Se
discordarem de nós, não precisaremos dizer “estou certo, mas não sei o porquê”.
Demonstraremos nossas ideias através da lógica, e se os outros ignorarem a lógica
não precisaremos nos irritar.
Muitos acreditam que não podemos ser pensadores sem
termos estudado Filosofia, lido bastante, frequentado uma Faculdade. Mas Sócrates
acreditava que todos de modo geral podem ser pensadores. Mais que isso, que não apenas podem pensadores,
mas tem a responsabilidade de sê-lo. Ele disse: “a vida sem reflexão não vale a
pena ser vivida”.
Sócrates fez da ideia
de refletir sobre a vida algo aceitável e alcançável e propõe que tenhamos
conversas filosóficas em qualquer lugar, até mesmo em uma esquina, e não apenas
em locais especiais como dentro de universidades. Conversava com todo tipo de
pessoa e gostava de lhes demonstrar que eram capazes de formar opiniões
embasadas.
É uma ideia
inspiradora. Mas, a respeito da sociedade atual, ele diria que somos muito
propensos a seguir as opiniões dos outros, independente delas serem embasadas
ou não. Apesar de acreditar que todos somos capazes de refletir, ele sabia que
a maioria não o faz, e por isso não aceitava que todas as opiniões tivessem o
mesmo valor, assim como nem todas as cerâmicas têm a mesma qualidade.
Assim, por
estranho que pareça por Sócrates ter vivido no berço da democracia, ele tinha
restrições ao processo democrático, pois se recusava a aceitar que uma opinião
fosse certa só porque era a da maioria. E consideraria ridículo as pessoas no
poder serem orientadas por pesquisas de opinião como muitas vezes acontece hoje. Para
Sócrates, o que importava é se um argumento é lógico e sensato. É assim que se
deveria tomar decisões, e não de acordo com a maioria.
Acreditar no
erro da maioria e ter certeza do próprio acerto pode ser um grande desafio,
especialmente com a subsistência em jogo. Podemos e devemos fazer o esforço de
compreender como os demais pensam. Mas também temos que enxergar o mundo com os
próprios olhos. Temos que respeitar as opiniões dos outros, mas compreender e respeitar não
significa adotar uma ideia sem bons critérios.
Perceber que certas ideias não têm fundamento e discordar da maioria pode ser frustrante e custar caro. Mas, se somos conscientes, não temos escolha a não ser prosseguir. E talvez a situação perdure. Mas o importante é o efeito positivo na nossa autoestima: sabemos e sentimos que agimos certo.
Perceber que certas ideias não têm fundamento e discordar da maioria pode ser frustrante e custar caro. Mas, se somos conscientes, não temos escolha a não ser prosseguir. E talvez a situação perdure. Mas o importante é o efeito positivo na nossa autoestima: sabemos e sentimos que agimos certo.
Em uma manhã de
março, Sócrates foi julgado e condenado à morte por um tribunal de quinhentos jurados
em Atenas, acusado de corromper a juventude e desrespeitar os deuses. A
atmosfera era hostil a Sócrates desde o começo: desconfiavam de Sócrates e
muitos dos jurados haviam sido questionados por ele e não estavam do seu lado.
Enfrentava a possibilidade
de morrer, mas manteve a calma. Disse: “se eu tivesse tempo para argumentar,
atenienses, provar-lhes-ia a justiça de minha causa”. E aceitou seu destino de
forma fatalista: morrer tomando um copo de veneno. Mas as suas ideias e a sua
mensagem para a Humanidade ainda vivem. Seu exemplo nos deu um forte símbolo de
coragem e inteligência contra a opinião da maioria.
Sócrates morreu
pelas suas ideias. Até onde você iria pelas suas? Poucos de nós terão que
enfrentar a morte por nossas ideias. Porém, Sócrates nos mostra que temos a capacidade
e o dever de não seguir opiniões passiva e cegamente. Devemos desenvolver ideias
nas quais realmente acreditamos. Apesar de relutarmos em perceber, somos todos
capazes da transição de ovelhas a seres pensantes.
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