domingo, 15 de junho de 2014

Mania de Comparação (3/8): Fator de Motivação

Talvez você não tenha a tendência de se comparar em excesso com terceiros e não se incomode por eles serem/fazerem/terem mais em determinados aspectos importantes. Porém, é possível que fique incomodado pelas comparações que outros fazem de você com eles e/ou com terceiros: “Fulano faz X, porque você não faz também?” “Por que você não pode ser tão Y quanto Beltrano?” “Sicrano tinha o mesmo problema que você, mas ele se empenhou de verdade”. “Todo mundo aqui é W, porque só você é Z?”
   

As comparações são uma forma de crítica. A questão é se internalizamos essa crítica e nos apropriamos dela, nos sentindo mal com isso. A devida atribuição de responsabilidades é crucial: só porque eles acreditam nisso, nós temos que acreditar também? E da mesma forma que eles? Talvez não possamos mudar a atitude de quem nos compara com terceiros, mas sempre podemos modificar a nossa própria atitude.
   
Podemos simplesmente discordar de que aquela pessoa seja mesmo um bom modelo para nós, focando os aspectos em que ele é deficitário. Podemos banalizar ou relativizar os pontos que o comparador destaca que devíamos ser iguais ao modelo – ou que deveríamos nos sentir mal porque nunca seremos iguais a ele. Podemos analisar as atitudes de quem nos compara consigo ou com um terceiro. Não é obrigatório replicar o comparador, mas sempre podemos contestar as comparações em nosso diálogo interno.
   
A publicidade explora amplamente o nosso desejo de sermos comparados favoravelmente com outros – e o nosso receio de sermos comparados desfavoravelmente. Por isso afirmam que vamos melhorar a forma como outros nos veem se usarmos determinado produto ou serviço. Uma tática é apresentar pessoas felizes e bem-sucedidas utilizando a marca. Outra tática é mostrar um indivíduo frustrado antes de usar o produto ou serviço e mostrá-lo satisfeito depois de usá-lo.
    
  
COMPARAÇÃO COMO FATOR DE MOTIVAÇÃO
  
Pode ser impactante ouvir (ou pressupor) que os outros pensam que somos menos do que acreditamos ser, ou do que gostaríamos de ser. E essa informação às vezes é dada na forma de uma comparação. Somos instigados a aperfeiçoar nossa atitude e nosso comportamento, se acreditarmos que podemos e devemos fazê-lo. Daí as comparações serem tão usadas para motivar um desempenho melhor.
  
O psiquiatra Alfred Adler afirmava que a luta por superioridade é um dos nossos principais fatores de motivação e possibilita o nosso desenvolvimento. Foi por causa dessa tese que ele rompeu com Freud. Para Adler, que cunhou a expressão “complexo de inferioridade”, todos nós temos em algum momento sentimentos de inferioridade, com os quais lidamos buscando formas de superar o que nos falta ou encontrar substitutos.
   
Segundo Adler os bebês aprendem a falar motivados pelo sentimento de inferioridade em relação aos adultos que conseguem se comunicar verbalmente. Nenhuma teoria atual sobre a aquisição da linguagem é incompatível com o ponto central dele: comparações são uma parte normal e necessária do processo de desenvolvimento. Adler salientava a importância dos nossos modelos, as pessoas que consideramos superiores, pois é o desejo de nos equipararmos a eles que nos motiva a aprender e crescer.
   
O modelo não precisa ser alguém que conhecemos pessoalmente. Pode até ser um personagem abstrato e sem nome, como “uma boa pessoa” que faz determinadas ações vistas como corretas e não faz outras, consideradas ruins. Os modelos também podem ser pessoas destacadas em uma organização da qual fazemos parte, podem ser pessoas famosas e podem ser personagens de filmes, seriados, livros, etc.
   
Poucos conseguem passar a vida sem tomar conhecimento (ou se importarem) dos inúmeros modelos que nos servem de referência. O desejo de nos ajustarmos, de nos igualarmos aos outros e de sobrepujá-los inegavelmente constitui um poderoso fator de motivação. Muitos se sentem motivados a atingir seus objetivos pelo desejo de mostrar que são capazes àqueles que duvidaram deles.
 
  
* * *

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Envie-nos seu comentário inteligente e educado: