Artigo de Rodrigo
Constantino
Dez em cada dez
esquerdistas falam mais de desigualdade do que de miséria em termos absolutos.
Por que será? Não parece fazer mais sentido observar a qualidade de vida dos
mais pobres e ver como ela está evoluindo? Se, digamos, 100 milhões de pessoas ontem
não podiam comer direito e não tinham onde morar, e hoje comem três refeições e
possuem uma pequena casa, isso não deveria ser motivo para regozijo daqueles
que se importam com a miséria alheia?
Curiosamente, a esquerda
só fala do hiato entre ricos e pobres, como se estes estivessem nessa situação
por causa daqueles, como se economia fosse um jogo de soma zero. Paul Krugman,
o ícone da esquerda americana, escreveu um artigo
tentando justificar porque devemos dar tanta importância à desigualdade. Não
convence ninguém mais atento.
Isso sem falar que as
medidas expansionistas que ele prega são a principal causa do aumento deste
gap. Afinal, a bolha imobiliária, que ele chegou a desejar em 2002 para curar o
estouro da bolha de tecnologia, favoreceu mais que proporcionalmente os ricos,
assim como as medidas de política monetária frouxa, que ele tanto aplaude,
também beneficiam mais os ricos. É muita contradição.
Mas segue um artigo meu
refutando essa obsessão esquerdista com a desigualdade social. Explico que,
provavelmente, a inveja está por trás desse foco deturpado. Lá vai:
A desigualdade social
“Quando as palavras
perdem seu significado, as pessoas perdem sua liberdade.” (Confúcio)
O conhecimento humano e a
ação humana são fenômenos conceituais. Para a formação de conceitos, o uso da
linguagem é fundamental. Ela é justamente a ferramenta que viabiliza a
integração dos conceitos. Conforme escreveu Ayn Rand, “a linguagem é um código
de símbolos visuais e auditivos que serve à função de converter conceitos no
equivalente mental de concretos”. As palavras são essenciais para o processo de
conceitualização e, portanto, para todo pensamento. Isso é verdade para alguém
isolado numa ilha ou na sociedade. Logo, aqueles que desejam inviabilizar o
pensamento independente costumam escolher como principal alvo justamente os
conceitos das palavras.
Em 1984, George Orwell
tratou do assunto através do conceito de duplipensar, definido pelo autor como
“a capacidade de guardar simultaneamente na cabeça duas crenças contraditórias
e aceitá-las ambas”. O mundo labiríntico do duplipensar consistia em usar a
lógica contra a lógica, repudiar a moralidade em nome da moralidade, e aplicar
o próprio processo ao processo. “Essa era a sutiliza derradeira: induzir
conscientemente a inconsciência e então tornar-se inconsciente do ato de hipnose
que se acabava de realizar”.
Ou seja, o objetivo era a
destruição dos conceitos bem definidos, fundamentais para o pensamento humano.
Guerra passava a significar paz, ditadura passava a significar democracia, e
social queria dizer antissocial. Este último termo é o foco desse artigo, pois
o conceito da palavra “social” passou a ser tão vago, tão abstrato, tão
flexível, que perdeu totalmente seu sentido objetivo. “Social” passou a ser uma
palavra mágica, que associada a alguma outra palavra qualquer, cria uma
expressão que implica numa finalidade a qual quaisquer meios são justificáveis.
Para o austríaco Hayek, o
adjetivo “social” tornou-se provavelmente a expressão mais confusa em todo
nosso vocabulário moral e político. A extraordinária variedade dos usos da
palavra serve apenas para confundir, não elucidar. O próprio Hayek fez um
levantamento e encontrou nada menos que 160 termos associados ao adjetivo
“social”. Na maioria dos casos, o termo “social” anexado servia na pratica para
negar o sentido da palavra. Como exemplo, podemos pensar em justiça, e
questionar o sentido de “justiça social”, que quase sempre representa a
destruição da própria justiça. Ou ainda os “movimentos sociais”, que costumam
ser apenas movimentos criminosos, formado por invasores revolucionários que
pretendem destruir a sociedade livre.
O uso do adjetivo
“social” serve para insinuar que os resultados dos processos espontâneos do
livre mercado foram, na verdade, fruto de uma criação humana deliberada. Em
segundo lugar e como consequência disso, serve para instigar os homens a
redesenhar aquilo que nunca foi desenhado por eles. Por fim, serve para
esvaziar o sentido dos termos associados a este adjetivo vago.
O exemplo já
citado de “justiça social” é perfeito para ilustrar isso. A demanda que surge
com o uso do adjetivo “social” ao lado de justiça é adotar uma “justiça
distributiva”, que é irreconciliável com a ordem competitiva de mercado, causa
do crescimento da riqueza e da própria população. O que essas pessoas chamam de
“social” representa o maior obstáculo à própria manutenção da sociedade. Social
aqui passa a significar antissocial.
Se retirarmos o véu que
cobre os motivadores reais por baixo do adjetivo “social”, fica evidente que
essas pessoas falam em desigualdade material apenas, nada mais. Estão
condenando o fato de que alguns indivíduos conseguiram recompensas monetárias
acima dos outros. Em suma, estão olhando somente para a conta bancária, como se
nada mais existisse na vida. Eles sabem que se usarem o termo verdadeiro, eles
perderão a pose de nobreza que vem como resultado do uso do adjetivo “social”.
Ora, desiguais os seres humanos já são ao nascer! A genética é diferente, as
paixões e interesses, a educação em casa, os anseios e metas, a inteligência e
o esforço, a sorte. É simplesmente impossível atribuir peso para cada um desses
itens, e é o resultado dessas características na livre interação dos indivíduos
que vai determinar as recompensas financeiras.
Isso não quer dizer
valor, no sentido de estima, que é subjetivo. Um médico pode ser mais
respeitado como indivíduo que um jogador de futebol, ainda que o último tenha
uma conta bancária maior. Aqueles que pensam que justiça seria tirar na marra o
dinheiro do jogador para dar ao médico estão assinando um atestado de
materialistas, que só enxergam dinheiro na frente. Como disse Benjamin
Franklin, “aquele que é da opinião que dinheiro fará qualquer coisa pode muito
bem ser suspeito de fazer qualquer coisa por dinheiro”. O caráter e a
felicidade das pessoas não podem ser medidos pelo bolso. No entanto, parece ser
justamente isso que os igualitários defensores da “justiça social” pensam. Eles
apontam a desigualdade material e clamam por “justiça social”, ou seja, saldos
bancários similares.
O esforço não é garantia
de sucesso no livre mercado competitivo. Aqueles que tentaram e não conseguiram
a mesma recompensa que o vizinho podem ser alimentados pela inveja. Ainda que
compreensível, tal sentimento é destrutivo, e trabalha contra o interesse da
sociedade, dos indivíduos. Somente quando o processo de mercado determina a
recompensa financeira há um funcionamento eficiente da economia, permitindo
maior criação de riqueza e conforto material para todos. Aqueles que, guiados
por instintos primitivos, fingem defender a liberdade enquanto condenam a
propriedade privada, os livres contratos, a competição, o lucro e até mesmo o
próprio dinheiro, representam uma ameaça para a civilização. Eles acham que são
movidos pela razão, e que podem definir de cima para baixo como arranjar os
esforços humanos da melhor forma para atender seus desejos, mas estão
profundamente enganados.
Na realidade, eles usam e
abusam do adjetivo “social”, mas estão apenas deixando uma paixão antissocial
falar mais alto: a inveja. Eis o que está por trás da máscara da maioria dos
combatentes das “desigualdades sociais”. Afinal, o foco de quem realmente se
preocupa com os mais pobres deveria ser a pobreza em si, não as desigualdades,
já que riqueza não é um bolo fixo. Um indivíduo fica rico no livre mercado somente
criando valor para os demais. Michael Dell não teve que tornar ninguém mais
pobre para ficar bilionário. Muito pelo contrário: ele ficou rico criando
riqueza para os seus consumidores. A criação de riqueza, portanto, depende das
tais “desigualdades sociais”.
Quem pretende acabar com
as desigualdades está mirando apenas na relação entre ricos e pobres, ignorando
que os pobres melhoram de vida se os indivíduos puderem ficar ricos. Se antes o
meu transporte era uma carroça e agora posso andar de carro, não importa se meu
vizinho tem uma Ferrari. Minha qualidade de vida melhorou, meu conforto é
maior, graças ao capitalismo. Focar apenas nas desigualdades materiais, ainda
por cima disfarçando isso com o uso inadequado da palavra mágica “social”, é um
atentado contra a civilização, principalmente contra os mais pobres. Vamos
atacar a miséria em si, e isso se faz com o capitalismo de livre mercado. Mas
deixemos as desigualdades “sociais”, leia-se materiais, em paz. Elas são fundamentais
para preservar a ordem espontânea que reduz a miséria.
FONTE:
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