domingo, 8 de junho de 2014

O Mau Hábito da Procrastinação

 
O historiador britânico Parkinson publicou em 1955 a tese de que as pessoas sempre utilizam todo o tempo disponível para realizar uma tarefa: se alguém dispuser de quatro horas para realizar o que pode ser feito em uma hora, a tendência é gastar quase todos os 240 minutos. Parkinson estudou oficiais da marinha britânica no pós-guerra que, apesar da diminuição de suas atribuições, requeriam cada vez mais subalternos para realizar cada vez menos atividades. Daí surgiu a máxima “O trabalho tende a expandir-se de modo a preencher todo o tempo disponível para sua realização”.
 
Poucos dedicam apenas o tempo realmente necessário para uma atividade e antecipam sua conclusão quando isso é possível. E muitos se sentem produtivos ao ocupar todo o tempo disponível, mesmo quando poderiam terminar antes. O pior é que, continuando o exemplo, o indivíduo passa a maior parte das quatro horas delongando e postergando o trabalho (e se sentindo incomodado com isso em algum grau de consciência) e deixa a maior parte dele para o fim do prazo, que faz de forma apressada.
 
Todos nós já deixamos para amanhã aquilo que poderia ser feito hoje. Existem diversos termos para denominar essa ação: adiar, reagendar, transferir, atrasar, postergar, procrastinar e assim por diante. Alguns desses termos têm conotação neutra ou até positiva, enquanto outros são negativos. Quem habitualmente faz isso pode ser chamados de “procrastinador”.
 
Todos nós já procrastinamos, já adiamos alguma tarefa que deveria ser feita já e ficamos tensos com esse adiamento. Muitas vezes requer um autoengano para se convencer de que não há problema em adiar a atividade ou que não podemos fazê-la agora, quando no fundo sabemos que não é verdade. E depois a pessoa tenta convencer os demais disso. Deste modo, às vezes se gasta mais energia com a procrastinação do que com a tarefa procrastinada.
 
Muitos procrastinam porque confundem o que deve ser feito com o que se gostaria de fazer. O procrastinador em geral adia atividades desagradáveis, mas necessárias, como preencher um formulário, pagar uma conta ou cumprir outra obrigação que não é divertida, até não poder mais adiar e ter que fazer sob pressão. Apresentam diversas justificativas e alguns se identificam com a procrastinação (“Eu sou assim mesmo”; “Brasileiro deixa tudo para a última hora mesmo”, etc.) e parecem se orgulhar disso.
 
Adiar uma atividade não é ruim em si mesmo. Muitas vezes é inócuo e em alguns casos pode até ser o mais recomendável. Além disso, é biologicamente normal buscar o prazer e evitar o desprazer. O problema é quando adiar tarefas se transforma no hábito da procrastinação, causando uma série de prejuízos de diversos tipos: pessoal, profissional, financeiro, etc. Adquire-se a reputação de não-confiável. A família e os colegas de trabalho acabam sendo prejudicados.
  
A procrastinação mais grave ocorre com tarefas que são importantes, mas não têm um prazo definido e podem ser continuamente adiadas. Fazer determinado curso, cuidar da saúde, restaurar um relacionamento, tomar certa decisão e outras ações são sempre deixadas para depois.
 
Muitos procrastinadores têm a crença inconsciente de que, se adiarem o enfrentamento de um problema, ele de alguma forma vai solucionar-se sozinho. Claro que poucos concordariam com isso verbalmente, mas é o que o seu comportamento indica. É um modo de pensar deficiente em clareza e maturidade, tolerável em crianças, mas preocupante em adultos que deveriam ter o senso de responsabilidade que inclui fazer o que deve ser feito no momento adequado.
 
A procrastinação pode aliviar adiando uma tarefa desagradável, mas esse alívio é temporário e perturbado pela consciência de que terá que enfrentar a atividade e que o tempo está se esgotando. Assim, o hábito de procrastinar sempre está ligado a diversos sentimentos negativos que se retroalimentam.
 
Alguns procrastinam por não saberem administrar bem o seu tempo. Talvez subestimem certas tarefas e pensem que podem realizá-las mais rápido do que realmente é possível. Também podem não ter uma boa noção de passagem do tempo. Outros talvez não saibam estabelecer prioridades, tudo é considerado urgente e tentam realizar mais do que são capazes.
 
Além disso, o desempenho pode ser reduzido por stress e condições fisiológicas, então a pessoa delonga por cansaço. O perfeccionismo também pode gerar procrastinação. E alguns se sentem inseguros e querem adiar algo para o qual se sentem despreparados ou mesmo indignos de realizar.
 
Como lidar com o hábito de procrastinação? O primeiro passo é o autoconhecimento, descobrir quais são os fatores atuantes no seu caso específico. Então é necessário desenvolver novos modos de pensar e agir.
 
Aprenda a estabelecer prioridades e a administrar bem o seu tempo. Faça primeiro o que é mais importante. Dê atenção ao que é importante, mas não é urgente. Cuide de sua saúde física e psicológica. Realize antes as atividades menos agradáveis, porém necessárias. Tenha expectativas equilibradas e saiba o que outros esperam de você. Não seja perfeccionista. Cultive um autoconceito razoável.
 
A palavra “autonomia” significa “lei dentro de si”, ou seja, integrada ao seu modo de pensar e agir. É a qualidade das pessoas que agem adequadamente porque entendem que é o melhor modo de agir. Em contraste, “heteronomia” significa “lei fora de si [ou seja, no outro]”. É a característica de pessoas que necessitam de constante acompanhamento para continuar agindo de forma adequada, pois são movidos por forças externas: recompensas ou consequências adversas.
 
O que se espera de um adulto é que seja autônomo, responsável, capaz de administrar sua própria vida, fazendo a ação certa no momento certo e da forma certa. Espera-se que conheça seus próprios limites e tenha senso de prioridade, realizando uma tarefa de cada vez e concluindo-a com qualidade.
 
 
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