O historiador britânico
Parkinson publicou em 1955 a tese de que as pessoas sempre utilizam
todo o tempo disponível para realizar uma tarefa: se alguém dispuser de quatro
horas para realizar o que pode ser feito em uma hora, a tendência é gastar quase todos os 240 minutos. Parkinson estudou oficiais da marinha britânica
no pós-guerra que, apesar da diminuição de suas atribuições, requeriam cada vez
mais subalternos para realizar cada vez menos atividades. Daí surgiu a
máxima “O trabalho tende a expandir-se de modo a preencher todo o tempo
disponível para sua realização”.
Poucos dedicam
apenas o tempo realmente necessário para uma atividade e antecipam sua conclusão
quando isso é possível. E muitos se sentem produtivos ao ocupar todo o tempo
disponível, mesmo quando poderiam terminar antes. O pior é que, continuando o
exemplo, o indivíduo passa a maior parte das quatro horas delongando e
postergando o trabalho (e se sentindo incomodado com isso em algum grau de
consciência) e deixa a maior parte dele para o fim do prazo, que faz de forma
apressada.
Todos nós já deixamos para
amanhã aquilo que poderia ser feito hoje. Existem diversos termos para denominar
essa ação: adiar, reagendar, transferir, atrasar, postergar,
procrastinar e assim por diante. Alguns desses termos têm conotação neutra ou
até positiva, enquanto outros são negativos. Quem habitualmente faz
isso pode ser chamados de “procrastinador”.
Todos nós já
procrastinamos, já adiamos alguma tarefa que deveria ser feita já e ficamos
tensos com esse adiamento. Muitas vezes requer um autoengano para se convencer
de que não há problema em adiar a atividade ou que não podemos fazê-la agora,
quando no fundo sabemos que não é verdade. E depois a pessoa tenta convencer os
demais disso. Deste modo, às vezes se gasta mais energia com a procrastinação
do que com a tarefa procrastinada.
Muitos procrastinam
porque confundem o que deve ser feito com o que se gostaria de fazer. O
procrastinador em geral adia atividades desagradáveis, mas necessárias, como
preencher um formulário, pagar uma conta ou cumprir outra obrigação que não é
divertida, até não poder mais adiar e ter que fazer sob pressão. Apresentam
diversas justificativas e alguns se identificam com a procrastinação (“Eu sou
assim mesmo”; “Brasileiro deixa tudo para a última hora mesmo”, etc.) e parecem
se orgulhar disso.
Adiar uma atividade não é
ruim em si mesmo. Muitas vezes é inócuo e em alguns casos pode até ser o mais
recomendável. Além disso, é biologicamente normal buscar o prazer e evitar o
desprazer. O problema é quando adiar tarefas se transforma no hábito da procrastinação,
causando uma série de prejuízos de diversos tipos: pessoal, profissional,
financeiro, etc. Adquire-se a reputação de não-confiável. A família e os colegas
de trabalho acabam sendo prejudicados.
A procrastinação mais
grave ocorre com tarefas que são importantes, mas não têm um prazo definido e
podem ser continuamente adiadas. Fazer determinado curso, cuidar da saúde,
restaurar um relacionamento, tomar certa decisão e outras ações são sempre
deixadas para depois.
Muitos procrastinadores
têm a crença inconsciente de que, se adiarem o enfrentamento de um problema,
ele de alguma forma vai solucionar-se sozinho. Claro que poucos
concordariam com isso verbalmente, mas é o que o seu comportamento indica. É um
modo de pensar deficiente em clareza e maturidade, tolerável em crianças, mas
preocupante em adultos que deveriam ter o senso de responsabilidade que inclui
fazer o que deve ser feito no momento adequado.
A procrastinação pode
aliviar adiando uma tarefa desagradável, mas esse alívio é
temporário e perturbado pela consciência de que terá que enfrentar a atividade
e que o tempo está se esgotando. Assim, o hábito de procrastinar sempre está
ligado a diversos sentimentos negativos que se retroalimentam.
Alguns procrastinam por não saberem administrar bem o seu tempo. Talvez subestimem
certas tarefas e pensem que podem realizá-las mais rápido do que realmente é
possível. Também podem não ter uma boa noção de passagem do tempo. Outros
talvez não saibam estabelecer prioridades, tudo é considerado urgente e tentam
realizar mais do que são capazes.
Além disso, o desempenho
pode ser reduzido por stress e condições fisiológicas, então a pessoa delonga
por cansaço. O perfeccionismo também pode gerar procrastinação. E
alguns se sentem inseguros e querem adiar algo para o qual se sentem
despreparados ou mesmo indignos de realizar.
Como lidar com o hábito
de procrastinação? O primeiro passo é o autoconhecimento, descobrir quais são
os fatores atuantes no seu caso específico. Então é necessário desenvolver
novos modos de pensar e agir.
Aprenda a estabelecer prioridades e a administrar
bem o seu tempo. Faça primeiro o que é mais importante. Dê atenção ao que é importante,
mas não é urgente. Cuide de sua saúde física e psicológica. Realize antes as
atividades menos agradáveis, porém necessárias. Tenha expectativas equilibradas
e saiba o que outros esperam de você. Não seja perfeccionista. Cultive um
autoconceito razoável.
A palavra “autonomia”
significa “lei dentro de si”, ou seja, integrada ao seu modo de pensar e agir.
É a qualidade das pessoas que agem adequadamente porque entendem que é o melhor
modo de agir. Em contraste, “heteronomia” significa “lei fora de si [ou seja, no
outro]”. É a característica de pessoas que necessitam de constante acompanhamento
para continuar agindo de forma adequada, pois são movidos por forças externas:
recompensas ou consequências adversas.
O que se espera de um
adulto é que seja autônomo, responsável, capaz de administrar sua própria
vida, fazendo a ação certa no momento certo e da forma certa. Espera-se que
conheça seus próprios limites e tenha senso de prioridade, realizando uma tarefa
de cada vez e concluindo-a com qualidade.
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