(Artigo de Gustavo Ioschpe)
Há muitos anos, dei uma
palestra a professores de uma rede estadual de ensino. Muita gente, ginásio grande.
Apresentei a saraivada de dados em que me baseio para estabelecer um
diagnóstico da educação brasileira. Depois da fala, abriu-se espaço para perguntas.
Lembro-me da primeira delas como se fosse hoje: “O palestrante que esteve aqui
ontem nos advertiu de que números são como palavras: são criações humanas. E
que por trás de toda criação humana existe a intencionalidade da pessoa que a
criou. Qual é a sua?”.
É uma visão de mundo
preocupante. Fruto do pensamento pós-modernista de viés marxista, postula que
não existe uma verdade objetiva, depreendida do estudo de fatos através das
ferramentas da ciência. O resultado dessa investigação científica seria apenas
uma verdade, a versão inventada pelo homem branco ocidental para ajudá-lo a subjugar
os povos subdesenvolvidos e as minorias dos países ricos.
Existem, para os
pós-modernistas, “verdades”, no plural, ditadas pelas características
históricas, culturais e econômicas de cada pessoa ou grupo. A crença de um
aborígine de que um trovão é uma manifestação do descontentamento de uma
deidade qualquer tem, portanto, o mesmo grau de verdade da descoberta de que o
trovão é causado pela ionização e pelo aquecimento do ar que envolve um raio,
gerando sua rápida expansão e a consequente onda de som.
Para que seja possível
pensar assim, é preciso ignorar que existem fatos e que números, estatísticas,
são apenas descrições quantitativas desses fatos. Se eu digo que a população
brasileira em julho de 2012 era de 193 milhões de pessoas, segundo o IBGE, não
se pode dizer que eu (ou os coconspiradores do IBGE) estou “criando” esse dado
como se criasse um soneto. Não, as pessoas existem e estão lá! O número é
apenas a maneira mais simples de comunicar esse fato, sem precisar mostrar
fotos de todos os cidadãos nem repetir a contagem a cada instante.
Se
entendemos que fatos existem, e se notamos que os fatos corriqueiros do mundo
que nos cerca já apresentam uma variedade e uma complexidade inenarráveis - da
estrutura atômica e subatômica das partículas ao movimento das marés ou de
planetas -, então necessitamos de um método impessoal e objetivo para perceber
e compreender esses fatos. Esse método precisa ser peculiar: deve ser feito por
seres humanos imperfeitos - com paixões e vilezas, sem visão de raio X nem
audição perfeita - para superar as próprias limitações e chegar o mais próximo
possível de observar o fato real, sem distorções ou falhas de interpretação.
A
criatura precisa superar o criador. Como fazê-lo? Perseguindo os fatos de
maneira objetiva e técnica, gerando hipóteses sobre o mundo que só podem ser
confirmadas através da medição. Porque, confiando em um método objetivo e em
dados oriundos de medições, os resultados podem ser reproduzidos por diferentes
pessoas em diferentes épocas, e as conclusões espúrias ou os métodos
defeituosos podem ser expostos, corrigidos ou descartados. Sim, esse método a
que me refiro é a ciência.
Os pós-modernistas
empenham-se em destruir o edifício da ciência. Não mostrando os erros
metodológicos ou quantitativos dos estudos científicos, porque a maioria dos adeptos
da causa não tem competência técnica para isso (“Errar é humanas”), mas simplesmente
atacando a credibilidade dos “especialistas”.
E isso se faz necessário não
apenas porque, sem os guardiães do conhecimento embasado em fatos, qualquer
Quixote pode descrever moinhos inexistentes que devem ser derrubados, mas
também porque as investigações mais recentes de várias ciências, especialmente
a biologia, desconstroem muitas ideias que são caras aos pós-modernistas e
marxistas em geral. Entre elas, especialmente aquela de que o ser humano é um
bicho fraterno e igualitário por natureza, e não o ser competitivo e movido
pela busca de status e hierarquia em seu grupo social que a psicologia
evolutiva não se cansa de demonstrar em estudos e experimentos (sugestões de
leitura em twitter.com/gioschpe).
Claro, se o fato não existe, o cientista ou
especialista só pode ser um impostor, que inventa dados para justificar algum
viés inconfessável. Para os ideólogos, toda neutralidade é uma farsa. Quem
aponta um erro de um pós-modernista não pode estar certo: necessariamente, deve
ser um tarado neoliberal. O marxismo e seus derivativos formam um sistema
fechado. Para os crentes, quem aponta seus erros o faz por algum interesse de
classe, etnia ou nação e, portanto, pode ser imediatamente descartado. Só
poderá apontar os erros quem for confrade. Mas, obviamente, quem é confrade não
percebe os erros.
As pessoas dessa
inclinação acreditam que a ciência é uma religião, uma fé cega. Que os
racionalistas apenas trocaram um deus crucificado por outro abstrato: o método
científico. Mas esse é um engano fundamental e dantesco. Porque a marca da
religião (e da ideologia) é justamente o dogma, a ideia inquestionável e
infalsificável, porque revelada por uma entidade superior. A ciência se move
por dúvidas, não por certezas: tudo é questionável e precisa ser demonstrado e
reproduzido. Não há crença em entidades superiores. Pelo contrário: a ciência
moderna se faz pela sobreposição de vários e pequenos esforços. Até que uma
teoria ganhe respeitabilidade e passe a ser aceita como uma boa descrição dos
fatos, precisa ser replicada por muitos pesquisadores, que podem estar
espalhados por todo o planeta.
É sempre assim que funciona? Claro que não. Quem
conhece a história das ideias sabe que cientistas e pesquisadores sofrem dos
mesmos vícios da humanidade em geral. São seduzidos pelo poder político e
econômico, sucumbem a ideologias, aferram-se a teorias patentemente equivocadas
por questões pessoais ou até mesmo estéticas. Mas, por mais que ideias tortas
tenham vida longa, algum dia elas não resistem ao acúmulo de evidências
contrárias e morrem, vão para o lixo da história, substituídas por formulações
mais corretas.
Algumas pessoas acham que
não se pode confiar na ciência porque “uma hora eles dizem uma coisa, outra
hora dizem outra”. Mas isso é causado mais por um viés da publicação dos
resultados do que pelos resultados em si. É mais culpa da imprensa (leiga e
acadêmica) do que de pesquisadores: é a velha história de que quando um homem
morde um cachorro é notícia, mas não vice-versa. Os resultados mais divulgados
são frequentemente os mais destoantes do senso comum e da pesquisa anterior. É
bom que sejam publicados, porque arejam o debate, mas na maioria dos casos
acabam sendo a exceção que comprova a regra.
Não é verdade que o processo
científico é um eterno pingue-pongue de versões antagônicas. O conhecimento
avança, chegamos a consensos. Dificilmente se verá algum estudo sério sugerindo
que fumar faz bem à saúde. É verdade que os consensos não são perenes e que
talvez vamos propor ações equivocadas por baseá-las em pesquisas que depois se
descobrirão equivocadas. Mas no mundo real sabemos que a perfeição é
inatingível. A questão, portanto, não é acabar com o erro, pois isso é
impossível, mas minimizá-lo. E certamente uma ação baseada em evidências
sólidas vai errar menos do que aquela inspirada em intuições e inclinações pessoais.
Que pessoas ignorantes
repitam essa linha do “cada um com a sua verdade” é até compreensível, saturados
que estamos, aqui nos tristes trópicos, de gente que compartilha essa
cosmovisão. Na terra da cordialidade, pega mal defender a existência de uma verdade
e o consequente erro daqueles que defendem seu oposto. Parece até arrogância.
Que professores pensem assim já é mais triste e preocupante, pois uma tarefa
fundamental do sistema escolar é transmitir ao alunado o conhecimento acumulado
ao longo de séculos de trabalho árduo de pesquisadores e pensadores, que muitas
vezes perderam a vida defendendo suas ideias “hereges”. Também são os
professores que deveriam propagar o método científico, para que seus alunos
possam empreender o mesmo caminho da busca da verdade trilhado pelos gigantes
intelectuais que nos precederam.
Mas que líderes públicos
pensem assim, e ajam ao arrepio daquilo que a pesquisa já estabeleceu, aí não é
apenas triste ou lamentável: é criminoso. Na área da educação posso dizer com
tranquilidade: a maioria dos nossos gestores públicos despreza totalmente os
milhares de estudos objetivos sobre o que funciona em educação. Insistem em
gastar fortunas com ideias que a experiência, documentada em estudos rigorosos,
já se encarregou de demonstrar serem inócuas.
O Ministério da Educação agora
cria um “Programa Nacional de Alfabetização na Idade Certa” que quer
alfabetizar na idade errada (8 anos, em vez de 6) e defende um aumento radical
do financiamento em educação que não terá nenhum impacto na melhora da
qualidade do ensino (em breve escreverei artigo a respeito).
Prefeituras
insistem em alfabetizar com o método construtivista, quando o fônico tem se
mostrado mais eficaz. Em diminuir o número de alunos em sala de aula ou colocar
dois mestres por turma, o que não dá resultado. Em carregar nas ferramentas
tecnológicas que não têm comprovação alguma, sem nem ao menos fazer uma escolha
criteriosa do livro didático ou prescrever o bom e velho dever de casa, ambos
com custo perto de zero e eficácia comprovada.
Muitos o fazem por
desconhecimento e preguiça, outros por conveniências políticas, outros ainda
por motivos inconfessáveis (não há fornecedor de dever de casa para dar uma
mãozinha no financiamento da próxima campanha...). Mas, no frigir dos ovos,
eles só podem se safar de sua irresponsabilidade porque sabem que grande parte
dos eleitores está convencida de que fatos são criados de acordo com a
intencionalidade de cada um e que, portanto, vontades são mais importantes do
que resultados e que as boas intenções dos inventores de factoides compensam o
divórcio entre seus objetivos e suas realizações.
Mas os dados existem. A
verdade existe. E até os pós-modernistas mostram saber disso. Cada vez que
tomam um remédio ou visitam um médico para tratar de uma doença, em vez de
consumir uma beberagem prescrita por um pajé, estão dando às próprias ideias a
credibilidade que merecem. Ignoramos esses dados, e os muitos recados que nos
mandam, por nossa conta e risco. Países não morrem nem vão à falência por
teimar em ignorar a realidade. Mas podem estagnar ou retroceder, como mostra a
história recente de alguns de nossos vizinhos. Se não acordarmos para a
realidade, em breve haveremos de fazer-lhes companhia.
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