segunda-feira, 15 de julho de 2013

Rigidez Mental (3/6): Calçados e Pontes


Além de impormos a nós mesmos padrões elevadíssimos, nossa rigidez dificulta ainda mais o cumprimento deles. Em tese, a rigidez na aplicação das regras deveria tornar a vida mais simples e fácil, mas na prática ocorre o oposto. Nossas convicções são como calçados. Precisamos de uma estrutura para calçar nossos pés, mas se os calçados forem apertados demais, eles vão começar a incomodar e, em vez de nos ajudarem a ir mais longe, vão nos obrigar a parar para sentar.
Quando realizamos tudo o que devemos fazer e evitamos tudo aquilo que não devemos fazer, estamos no caminho estrito da virtude, o que é elogiável. Mas imagine que você está atravessando uma ponte estreita demais, da largura do seu calçado, o que o obriga a colocar cuidadosamente um pé à frente do outro para manter o equilíbrio e chegar ao outro lado em segurança. Agora imagine se justo neste momento os seus pés começarem a doer por causa dos calçados apertados...

É exatamente o que ocorre quando definimos as obrigações (nossas e dos outros) em termos demasiadamente estritos e rígidos: sofremos pressão. Basta um passo em falso para cairmos em culpa, raiva, dor, etc.

A ponte e os calçados são necessários para chegarmos ao outro lado. Mas com uma ponte mais larga e calçados confortáveis, a travessia fica menos sofrida. Se nossos pés não estiverem doendo e não precisarmos nos preocupar tanto com a possibilidade de cairmos, podemos refletir sobre o que faremos depois de chegar ao outro lado e talvez possamos até usufruir o passeio. Podemos parar no meio do caminho se necessário, talvez até tropeçar, sem maiores consequências.
PARA ALARGAR A PONTE

Para alargar nossa ponte é necessário refletir sobre cada um dos mandamentos da nossa lista de regras. As pessoas rígidas seguem a metanorma de que as regras devem ser obedecidas automaticamente, sem ponderação nem pesar os prós e os contras, sem levar em conta as circunstâncias específicas nem examinar a possibilidade de outros cursos de ação. É isso que transforma o senso de responsabilidade em um peso inútil, uma obstrução, em vez de uma fonte de orientação e apoio.

Novamente, nossos erros cognitivos agem em grupo. A rigidez mental muitas vezes é acompanhada da ilusão da telepatia. Quando nos zangamos com alguém que acreditamos que devia saber o que queremos, mas não corresponde ao nosso desejo, muitas vezes estamos reprovando a pessoa por não ser telepata. Não concedemos o benefício da dúvida, concluímos que não precisamos conversar, caso encerrado.

A rigidez mental também possui papel fundamental no poder que delegamos aos nossos supostos críticos. Traduzimos o que supomos que eles pensam em uma ordem. Acreditamos que o outro espera de nós algo que não queremos ou não podemos fazer e nos sentimos mal com essa cobrança.

Indivíduos mentalmente rígidos só enxergam dois extremos: as obrigações e as proibições. Só há duas alternativas (obedecer ou desobedecer) e a pessoa tem que escolher a única opção correta. Porém, pensar em termos de “aconselhável X desaconselhável” e “melhor X pior” oferece um leque de escolhas muito maior. Dentro do que é correto existem muitas alternativas, algumas melhores do que outras para cada situação e algumas são mais realizáveis para nós dentro da nossa capacidade atual.

Não há obrigação tão poderosa que não possa ser objeto de reflexão. Uma das diretrizes mais fortes que pessoas éticas seguem é a de Não Matar, mas a Lei abre exceção para a legítima defesa. E se isso vale para uma diretriz tão poderosa, também vale para sua lista particular de obrigações. Há inúmeras formas aceitáveis e responsáveis de "alargar pontes", começando por inocentes jogos de linguagem. Pessoas que se sentem mal quando falam palavrões podem aprender algumas palavras como sonoridade parecida para falar quando sentirem raiva.

Quando começamos a prestar atenção, podemos ficar surpresos com o quanto expressamos proibições para nós mesmos em nosso diálogo interno ou simplesmente agimos de forma automática em obediência a obrigações (e nos submetemos às punições) que nunca refletimos se são 100% devidas. Alguns se recriminam por não haver tomado certa atitude e assim evitado determinado acontecimento, mesmo que na época não tivessem condições de ter feito algo mais ou nem sequer de ter previsto o problema.

Quando paramos para escrever nossa lista de obrigações e analisá-la, podemos descobrir que algumas nem existem de fato. Uma mulher não queria voltar a trabalhar depois da licença maternidade, preferindo ficar em casa alguns anos e depois retomar a carreira. O seu marido tinha condições de sustentar a casa, mas ela tinha medo da reprovação feminista das colegas. Porém, quando finalmente lhes contou o seu desejo, ficou surpresa com a compreensão e apoio que elas lhe deram.

  
ANALISE AS CONSEQUÊNCIAS

Depois de especificar quais são exatamente as nossas autorregras, o próximo passo é analisar as consequências de mantê-las, comparando o peso destas com o peso das consequências de abdicar delas ou modificá-las. Sim, você está certo em acreditar que terá que enfrentar consequências se não cumprir suas obrigações. Mas é possível que as consequências não sejam exatamente as que espera.

A voz da consciência pode lhe dizer que temos que comer toda a comida no prato (mesmo que o restaurante tenha servido uma quantia grande demais). Também diz que temos que ser perfeitos em tudo e seguir uma série de tradições sociais. Mas o que aconteceria se não fizermos? Ou se fizermos de modo alternativo? Vamos ser fuzilados? Ou cobertos de alcatrão e penas e expulsos da cidade? O superexagero expõe nossos exageros habituais.

Conforme aprender a pensar em termos de prós X contras, deixará de acreditar que só existe uma única solução e começará a selecionar a melhor opção. Experimente escrever as prováveis consequências positivas e negativas de cada alternativa em uma decisão. Anote o que é importante para você. Visualizar as duas listas o ajudará a comparar os custos e benefícios de cada opção, o que permitirá fazer uma escolha consciente e racional, em vez de agir de forma automática e emocional.

Pare de pensar que só existem duas alternativas totalmente opostas e igualmente desagradáveis! Entre uma e outra geralmente há uma série de possibilidades melhores. Mariana mora com a mãe, que é muito crítica e a faz se sentir mal. Pensa em morar sozinha, mas essa ideia a faz se sentir culpada. Porém, morar sozinha não significa que ela deixará de ver a mãe com regularidade e de cuidar dela. E Mariana poderia arranjar uma casa próxima da mãe. Ou pensar em ainda outra opção.


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