Além de impormos a nós mesmos padrões
elevadíssimos, nossa rigidez dificulta ainda mais o cumprimento deles. Em tese,
a rigidez na aplicação das regras deveria tornar a vida mais simples e fácil,
mas na prática ocorre o oposto. Nossas convicções são como calçados. Precisamos de
uma estrutura para calçar nossos pés, mas se os calçados forem apertados
demais, eles vão começar a incomodar e, em vez de nos ajudarem a ir mais longe,
vão nos obrigar a parar para sentar.
Quando realizamos tudo o que devemos fazer e evitamos tudo aquilo que não devemos fazer, estamos no
caminho estrito da virtude, o que é elogiável. Mas imagine que você está atravessando uma ponte
estreita demais, da largura do seu calçado, o que o obriga a colocar cuidadosamente um pé à
frente do outro para manter o equilíbrio e chegar ao outro lado
em segurança. Agora imagine se justo neste momento os seus pés começarem a doer por causa dos
calçados apertados...
É exatamente o que ocorre quando definimos as
obrigações (nossas e dos outros) em termos demasiadamente estritos e rígidos:
sofremos pressão. Basta um passo em falso para cairmos em culpa, raiva, dor, etc.
A ponte e os calçados são necessários para
chegarmos ao outro lado. Mas com uma ponte mais larga e calçados confortáveis,
a travessia fica menos sofrida. Se nossos pés não estiverem doendo e não
precisarmos nos preocupar tanto com a possibilidade de cairmos, podemos
refletir sobre o que faremos depois de chegar ao outro lado e talvez possamos
até usufruir o passeio. Podemos parar no meio do caminho se necessário, talvez
até tropeçar, sem maiores consequências.
PARA
ALARGAR A PONTE
Para alargar nossa ponte é necessário refletir
sobre cada um dos mandamentos da nossa lista de regras. As pessoas rígidas seguem a metanorma
de que as regras devem ser obedecidas automaticamente, sem ponderação nem pesar
os prós e os contras, sem levar em conta as circunstâncias específicas nem
examinar a possibilidade de outros cursos de ação. É isso que transforma o
senso de responsabilidade em um peso inútil, uma obstrução, em vez de uma fonte de
orientação e apoio.
Novamente, nossos erros cognitivos agem em grupo.
A rigidez mental muitas vezes é acompanhada da ilusão da telepatia. Quando nos
zangamos com alguém que acreditamos que devia saber o que queremos, mas não
corresponde ao nosso desejo, muitas vezes estamos reprovando a pessoa por não
ser telepata. Não concedemos o benefício da dúvida, concluímos que não precisamos conversar, caso
encerrado.
A rigidez mental também possui papel fundamental
no poder que delegamos aos nossos supostos críticos. Traduzimos o que supomos
que eles pensam em uma ordem. Acreditamos que o outro espera de nós algo que
não queremos ou não podemos fazer e nos sentimos mal com essa cobrança.
Indivíduos mentalmente rígidos só enxergam dois
extremos: as obrigações e as proibições. Só há duas alternativas (obedecer ou
desobedecer) e a pessoa tem que escolher a única opção correta. Porém, pensar em
termos de “aconselhável X desaconselhável” e “melhor X pior” oferece um leque
de escolhas muito maior. Dentro do que é correto existem muitas alternativas,
algumas melhores do que outras para cada situação e algumas são mais realizáveis para nós dentro da nossa capacidade atual.
Não há obrigação tão poderosa que não possa ser
objeto de reflexão. Uma das diretrizes mais fortes que pessoas éticas seguem é
a de Não Matar, mas a Lei abre exceção para a legítima defesa. E se isso
vale para uma diretriz tão poderosa, também vale para sua lista particular de
obrigações. Há inúmeras formas aceitáveis e responsáveis de "alargar pontes",
começando por inocentes jogos de linguagem. Pessoas que se sentem mal quando
falam palavrões podem aprender algumas palavras como sonoridade parecida para falar
quando sentirem raiva.
Quando começamos a prestar atenção, podemos ficar
surpresos com o quanto expressamos proibições para nós mesmos em nosso diálogo
interno ou simplesmente agimos de forma automática em obediência a obrigações
(e nos submetemos às punições) que nunca refletimos se são 100% devidas. Alguns
se recriminam por não haver tomado certa atitude e assim evitado determinado acontecimento,
mesmo que na época não tivessem condições de ter feito algo mais ou nem sequer
de ter previsto o problema.
Quando paramos para escrever nossa lista de
obrigações e analisá-la, podemos descobrir que algumas nem existem de fato. Uma
mulher não queria voltar a trabalhar depois da licença maternidade, preferindo
ficar em casa alguns anos e depois retomar a carreira. O seu marido tinha
condições de sustentar a casa, mas ela tinha medo da reprovação feminista das
colegas. Porém, quando finalmente lhes contou o seu desejo, ficou surpresa com
a compreensão e apoio que elas lhe deram.
ANALISE
AS CONSEQUÊNCIAS
Depois de especificar quais são exatamente as nossas
autorregras, o próximo passo é analisar as consequências de mantê-las,
comparando o peso destas com o peso das consequências de abdicar delas ou
modificá-las. Sim, você está certo em acreditar que terá que enfrentar consequências
se não cumprir suas obrigações. Mas é possível que as consequências não sejam
exatamente as que espera.
A voz da consciência pode lhe dizer que temos que
comer toda a comida no prato (mesmo que o restaurante tenha servido uma quantia
grande demais). Também diz que temos que ser perfeitos em tudo e seguir uma
série de tradições sociais. Mas o que aconteceria se não fizermos? Ou se fizermos de modo alternativo? Vamos ser
fuzilados? Ou cobertos de alcatrão e penas e expulsos da cidade? O superexagero expõe nossos
exageros habituais.
Conforme aprender a pensar em termos de prós
X contras, deixará de acreditar que só existe uma única solução e começará
a selecionar a melhor opção. Experimente escrever as prováveis consequências
positivas e negativas de cada alternativa em uma decisão. Anote o que é
importante para você. Visualizar as duas listas o ajudará a comparar os custos
e benefícios de cada opção, o que permitirá fazer uma escolha consciente e
racional, em vez de agir de forma automática e emocional.
Pare de pensar que só existem duas alternativas
totalmente opostas e igualmente desagradáveis! Entre uma e outra geralmente há
uma série de possibilidades melhores. Mariana mora com a mãe, que é muito
crítica e a faz se sentir mal. Pensa em morar sozinha, mas essa ideia a faz se
sentir culpada. Porém, morar sozinha não significa que ela deixará de ver a mãe
com regularidade e de cuidar dela. E Mariana poderia arranjar uma casa próxima da mãe.
Ou pensar em ainda outra opção.
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