Para compreender o treinamento para a infelicidade que ocorre sobre o pano
de fundo da cultura, precisamos entender um pouco sobre a formação da
personalidade. Cada pessoa nasce com uma bagagem genética única que a faz
tender para certos traços de temperamento. No início, o bebê é puro instinto
(como fome e sono), não possui senso de si mesmo nem noção de “outra pessoa”,
nem de tempo, espaço e quaisquer outros conceitos.
O bebê nem sequer possui capacidade neurológica para compreender essas
informações. Mas gradualmente o
cérebro amadurece e a criança vai desenvolvendo o potencial de aprendê-las, o
que pode ser estimulado ou limitado pelos ambientes em que vive. Também aprende
a administrar suas necessidades fisiológicas, a controlar seus impulsos e desenvolve
um rudimentar conceito de “certo” e “errado”. Assim, aos poucos a criança desenvolve
maior autonomia e maior capacidade de ajustar seu comportamento a cada tipo de
ambiente. Forma sua autoimagem, sua maneira de ver as outras pessoas e sua
cosmovisão (visão do mundo).
Deste modo, a partir de sua carga genética e das influências ambientais
que teve nos primeiros anos, a criança desenvolve um paradigma básico que vai
influir na forma como interpreta e reage às experiências dos anos seguintes, o
que (em conjunto com as influências genéticas e ambientais, que continuam
atuando sempre) tende a reforçar ainda mais seu paradigma, em um círculo
vicioso ou virtuoso. E a maioria das pessoas não percebe que foi condicionada a
pensar como pensa, acredita que sua percepção subjetiva da realidade é a representação
exata da realidade objetiva.
Quando um animal herbívoro (como um macaco) encontra uma fruta madura, a
aparência, a textura, o cheiro e o sabor agradáveis da fruta indicam ao cérebro
dele que este alimento é adequado para consumo, além de sinalizar que seu organismo
necessita daqueles nutrientes. E quando este mesmo animal encontra uma fruta
estragada, todos esses fatores são desagradáveis e indicam ao cérebro que ela
prejudicará seu bem-estar.
Ou seja, o cérebro processa todas as informações do ambiente seguindo o
comando básico “Aproxime-se do que causa Prazer; Afaste-se do que causa Dor”.
Esse instinto nada tem de moralista nem de imoral, até porque os animais não
possuem senso de ética como os humanos. Neste sentido, os seres vivos são robôs
seguindo automaticamente sua programação instintiva para interagir no ambiente
e preservar sua própria existência.
O ser humano também é um ser biológico que precisa lidar com diferentes
ambientes e preservar sua própria existência. Assim, seu cérebro também segue
instintivamente o algoritmo básico “Aproxime-se do que causa Prazer; Afaste-se
do que causa Dor”. Porém, com nossa capacidade cognitiva imensamente maior,
criamos ambientes e condições extremamente mais complexas do que qualquer
animal enfrenta. Nem sempre as equações “Prazeroso = Bom” e “Doloroso = Ruim”
são válidas.
Os animais na vida selvagem (em especial os carnívoros) precisam labutar
muito para encontrar alimento e quando eles encontram uma grande quantidade instintivamente
comem o máximo possível para formar uma reserva nutricional em seu organismo,
pois vão demorar um tempo imprevisível para ter uma nova oportunidade de
alimentar-se.
Já o ser humano é onívoro e pode ter acesso contínuo a uma grande quantidade
de alimento, que ainda por cima pode ser de valor nutritivo deficiente ou nulo.
Mas o instinto biológico o impulsiona a consumir mais que o necessário para
formar a reserva de segurança. E como essa reserva não é gasta e sim aumentada,
este é um dos fatores pelos
quais algumas pessoas têm
excesso de peso.
Este exemplo simplificado ilustra que precisamos educar nossos instintos
para que eles sejam canalizados e expressos de formas adequadas. Essa educação
é recebida de forma explícita e implícita através das instruções e exemplos que
a pessoa recebe desde a infância.
Alguns falam da educação dos impulsos instintivos como se ela fosse
intrinsecamente ruim, causadora da infelicidade e outros males. Porém, essa educação
é fundamental para a vida em sociedade, que por sua vez é requisito para uma
vida satisfatória. Por outro lado, alguns falam dos impulsos instintivos como
se eles fossem intrinsecamente maléficos e tivessem que ser controlados de
forma coercitiva. Esse mal-entendido gera muita frustração, regras excessivas, superconfiança,
hipocrisia e outros erros.
Assim, o problema não é a educação dos instintos em si, mas as formas
distorcidas que ela é feita. Seria ótimo se estas instruções e modelos fossem
sempre equilibrados e sensatos, mas não é isso que ocorre. As pessoas tendem a
repassar automaticamente para as crianças o modo de pensar e agir que elas
próprias receberam, sem reflexão nem aprimoramento. Deste modo, os erros são
passados de geração para geração. Ou cada geração reage cometendo os erros
opostos à anterior.
Existem dois erros opostos que devemos evitar, buscando o equilíbrio. Um
é o hedonismo, a crença de que a
busca incessante do prazer (em quantidades e intensidades cada vez maiores) é o
bem supremo, o principal objetivo da nossa existência, nosso modo de vida.
Outro erro é o ascetismo, a crença de que
praticar o desprezo pelo corpo e pelos prazeres físicos é a forma para se
alcançar elevação existencial, alimentando uma atitude severa, rígida,
inflexível, sombria, despojada em suas opiniões e modos de agir.
O equilíbrio é exercer uma autodisciplina razoável em busca de objetivos
ponderados, usufruindo a vida hoje sem trocar a felicidade de longo prazo por
prazeres imediatos, seguindo altos ideais com bom senso.
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