O mosaico de variedade no ser humano produz um
amplo leque de respostas cognitivas e comportamentais nas pessoas que sofrem
traumas psicológicos. Diante do mesmo evento traumatizante (ou diante do mesmo
tipo de evento), as pessoas manifestam diferentes graus de transtornos
psíquicos.
Esses dados demonstram que os eventos estressores
por si só não conduzem necessariamente aos traumas psicológicos graves, existem
variáveis intrapessoais e ambientais que ajudam muitas vítimas a processar mentalmente
suas experiências traumatizantes e superá-las melhor do que outras vítimas dos
mesmos eventos ou semelhantes.
O evento traumatizante em geral é uma ocorrência
inesperada que desestabiliza o cotidiano e a psique da pessoa por certo
período, dentro do qual pode experimentar forte tristeza, ansiedade, raiva,
etc. Nestas situações, muitos buscam um novo significado e propósito para sua
vida. As crenças e práticas religiosas e/ou espirituais (que o indivíduo já
tinha antes ou então adquire nesta fase) influenciam a forma como ele
interpreta e lida com acontecimentos traumáticos.
A subjetividade e as respectivas representações
internas articulam percepções e crenças capazes de gerar resultados objetivos
na vida de um ser humano. Estudos científicos indicam que uma atitude geral
otimista ou pessimista influi na longevidade e na qualidade de vida do
indivíduo.
Outros estudos indicam que o envolvimento
religioso pode contribuir para o bem-estar subjetivo e a saúde mental,
inclusive para pessoas vitimadas por enfermidades graves e outros eventos
psicologicamente traumatizantes. Entretanto, a religiosidade também pode causar
impactos negativos quando (p/ex.) a pessoa pensa que foi abandonada injustamente
por Deus ou está sendo punida por Ele por algum erro do passado.
Ainda são necessários mais estudos para entender
melhor os efeitos positivos e negativos da religiosidade na recuperação
psicológica de eventos traumáticos. Porém, o que já está claro é:
(1) A espiritualidade e a religião em geral [mas
nem sempre] são benéficas para lidar com as consequências do trauma;
(2) Experiências traumáticas podem conduzir a uma
busca ou aprofundamento da religiosidade e
(3) O uso produtivo da religião, a abertura
espiritual, a prontidão para enfrentar questões existenciais, a participação
religiosa e a religiosidade intrínseca contribuem para o crescimento
pós-traumático.
A convicção religiosa por meio da esperança pode
potencializar a força de vontade para enfrentar dificuldades severas, lidar com
as limitações humanas e aceitar sua vulnerabilidade e finitude, reduzir a
sensação de desamparo e perda de controle e fornecer uma estrutura cognitiva
capaz de atenuar o sofrimento e reconstruir a vida. O uso da religiosidade para
enfrentar e superar traumas envolve muitos aspectos cognitivos:
(1) Ressignificação Benevolente: buscando lições
divinas para compreender o acontecimento;
(2) Apoio Espiritual: buscando conforto do amor e
cuidado divinos por meio da oração, leitura das Escrituras, consolo de
correligionários, etc.;
(3) Entrega Religiosa Ativa: fazendo tudo o que é
possível dentro de seu poder pessoal e colocando o restante nas mãos de Deus;
(4) Busca da Conexão Espiritual: acreditando que a
vida faz parte de um domínio espiritual maior e de um propósito divino
transcendental;
(5) Busca de Sentido e de Direção: orando,
estudando as Escrituras, ouvindo discursos e/ou conselhos particulares para
encontrar uma nova razão para viver e orientações práticas sobre diversos assuntos.
Convicções e estratégias cognitivas como estas
influem na interpretação dos acontecimentos da vida e na atribuição de
significado e coerência, construindo uma estrutura narrativa que pode
contribuir para integrar os pensamentos e emoções dispersos pela experiência
traumática, auxiliando decisivamente a superação da mesma. Estudos com
neuroimagens funcionais apoiam a hipótese de que é dessa forma que o cérebro se
reestrutura para transcender o traumatismo psicológico.
Entretanto, embora crenças religiosas possam
auxiliar a recuperação do trauma, os psicoterapeutas não devem estimular a
adoção de qualquer sistema de crenças específico. Por outro lado, precisam
manter a equanimidade com clientes ou pacientes que levantem assuntos
existenciais e religiosos. É um dever ético respeitar essas opiniões e exercer
empatia e continência à necessidade terapêutica que o cliente ou paciente sente
de expressá-las como parte de sua realidade subjetiva, ainda que o psicólogo
pessoalmente não compartilhe das mesmas crenças.
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