segunda-feira, 1 de julho de 2013

Teorias do Desenvolvimento (2/6): Grupo A - Estágios com Metas


As teorias desse grupo compartilham o pressuposto de que o desenvolvimento apresenta algum ponto final, direção ou meta. Essa meta pode ser conceituada como maturidade, integridade, senso integrado de identidade ou formas mais complexas de pensamento. Pressupõem que todas as pessoas movimentam-se na direção desse ponto final em estágios determinados. Entre os que pressupõem uma mudança estrutural em estágios estão os teóricos psicanalíticos (como Freud e Erikson) e os teóricos cognitivo-desenvolvimentais (como Piaget)



PSICANÁLISE

Freud enfatizou que o comportamento é governado por motivos conscientes e inconscientes e que a personalidade desenvolve uma estrutura psíquica tríplice por etapas: primeiro o inato id (centro da libido), depois deste se desenvolve o ego (elemento mais consciente que funciona como executivo da personalidade) e então o superego (centro da consciência moral). Material inconsciente posterior também é criado através dos vários mecanismos de defesa (estratégias inconscientes e normais para a redução da ansiedade, como a negação e a projeção).

Freud propôs ainda um conjunto de cinco fases psicossexuais pelas quais a criança se movimenta em uma sequência fixa, fortemente influenciada pela maturação: (1) oral, (2) anal, (3) fálico, (4) latência e (5) genital. O nome da fase decorre de onde se concentra a libido no estágio A crise de Édipo ocorre no estágio fálico, em meninos e meninas. O bom desenvolvimento requer um ambiente que satisfaça as necessidades peculiares de cada período. Um ambiente inadequado deixará resíduos de problemas não-resolvidos e necessidades não-satisfeitas que são levados aos estágios subsequentes e à vida adulta.


ERIKSON

Erikson enfatizou forças sociais, mais do que impulsos inconscientes e a maturação intrínseca, como causadores e orientadores do desenvolvimento. Além disso, acreditava que a personalidade não ficava pronta no fim da infância, mas sim que ela continuava se desenvolvendo na vida adulta.
 
O conceito-chave é o desenvolvimento da identidade, entendido como se dando em oito estágios psicossociais ao longo do curso do ciclo da vida: (1) confiança x desconfiança, (2) autonomia x vergonha, (3) iniciativa x culpa, (4) atividade x inferioridade, (5) identidade x confusão, (6) intimidade x isolamento, (7) procriação estagnação e (8) integridade do ego x desespero. Cada estágio é centrado em certa tarefa social e em determinado dilema ou “crise” que dá nome à fase. Não é necessariamente cataclísmica, mas uma escolha que a pessoa precisa fazer e manter.

Os conceitos de Erikson influenciaram outros pesquisadores, como John Bowlby (autor da Teoria do Apego, que foca o estágio confiança x desconfiança) e James Marcia, que propôs que o processo de formação do jovem adulto ou “adolescente” (estágio identidade x confusão) é dividido em duas partes: crise e compromisso, formando quatro possibilidades de Estados de Identidade: estado de difusão, estado de exclusão, estado de moratória e estado de alcance da identidade. Uma crise constitui um período de decisão, quando reexamina antigos valores e escolhas, o que pode ocorrer de forma gradual ou repentina. E compromisso é o resultado do processo de reavaliação e comprometimento com algum papel e/ou ideologia.


COMENTÁRIO

A resistência das teorias psicanalíticas por décadas até hoje indica a força dessa perspectiva. O conceito de motivações inconscientes é importante e seus traços podem ser encontrados nas teorias atuais sobre modelos internos. As teorias psicanalíticas focalizam a importância dos cuidadores da criança na formação da psique dela. Ao mesmo tempo, enfatizam que a criança, além de necessidades, possui tarefas. Assim, ela não é mera receptora passiva, mas agente ativa de sua própria mudança, havendo assim uma interação entre sujeito e ambiente.

Por outro lado, podemos apontar alguns pontos fracos das teorias psicanalíticas. Tanto Freud quanto Erikson basearam-se essencialmente em observações clínicas e não em pesquisa sistemática. As observações de Freud envolveram pacientes de psicoterapia, o que o levou a enfatizar os processos patológicos e negativos. Outro ponto fraco é a imprecisão, a dificuldade de se testar para comprovar ou refutar cientificamente todos os conceitos psicanalíticos. Porém, novos métodos de pesquisa e os avanços da tecnologia e da neurociência tornaram possível fazer diversos testes. A psicanálise possui grande seriedade e riqueza.


PIAGET

Piaget focalizou o desenvolvimento do pensamento, mais do que o da personalidade. Um dos conceitos-chave é o de “adaptação”, formado pelos subprocessos de assimilação de informações, acomodação dessas informações nos paradigmas ou “esquemas” e equilibração dos esquemas. Estes subprocessos são como uma escada-caracol no fim de um corredor que leva ao andar de cima.

Segundo Piaget, o resultado de várias equilibrações principais é um conjunto de quatro estágios cognitivos, cada um dos quais resultando em um sistema cognitivo coerente e qualitativamente diferente do anterior: (1) sensório-motor, (2) pré-operacional, (3) operações concretas e (4) operações formais. Crianças mais velhas possuem capacidades motoras e cognitivas que as mais novas não possuem. Se uma criança de 2 anos perde um objeto, vai procurar por ele de forma rápida e desorganizada, incapaz de fazê-lo de modo sistemático, enquanto uma criança de 10 provavelmente será capaz de fazer uma busca metódica.

Piaget acreditava que é da natureza humana adaptar-se ao ambiente em um processo ativo: não é o ambiente que modela a criança, mas sim a criança que busca ativamente compreender o ambiente. O conhecimento é um repertório de ações físicas e/ou cognitivas. O bebê inicia com um pequeno repertório de esquemas inatos sensoriais e motores. Com o tempo ele vai fazendo comparações, formando categorias e aprendendo nomes para estas. E gradualmente passava de esquemas mais simples para esquemas mais complexos através do processo básico da adaptação.
 
Esse processo muda a percepção, reorganiza os pensamentos, aperfeiçoa as habilidades e aprimora as estratégias, reforçando ou modificando as teorias da criança a respeito dos assuntos. A criança vai acumulando mudanças significativas, passando por três reorganizações especiais que a fazem subir para um estágio cognitivo mais elevado.

Outro teórico do desenvolvimento muito influente foi Vygotsky, que apresentou uma visão complementar à de Piaget. Enquanto a teoria de Piaget enfoca o desenvolvimento que ocorre “de dentro para fora”, Vygotsky enfocou a influência ambiental sobre o desenvolvimento da criança.

Enquanto Piaget acreditava que não havia mais mudanças estruturais após o fim da infância. Porém, diversos teóricos cognitivo-desenvolvimentais levaram até a idade adulta o processo de desenvolvimento cognitivo. Um deles foi Lawrence Kohlberg que propôs uma fascinante teoria do desenvolvimento do raciocínio moral dividido em seis estágios que envolvem reestruturação do pensamento e uma compreensão mais complexa e elaborada. Os estágios finais só podem ser alcançados na vida adulta, as pessoas os desenvolvem na mesma sequência, mas em diferentes velocidades e nem todos atingem os dois últimos.


COMENTÁRIOS

A teoria de Piaget causou um impacto difícil de exagerar na compreensão do desenvolvimento das crianças. Questionou muitas ideias anteriores (que eram simplistas, mas pareciam óbvias) e apresentou técnicas para comprovar o que dizia. Pesquisas posteriores mostraram que estava errado em diversos pontos. Porém, de modo geral sua teoria é válida e influente.


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