segunda-feira, 1 de julho de 2013

Nietzsche e as Dificuldades

 
 
Todos nós passamos por períodos difíceis, enfrentamos dificuldades que parecem insuperáveis, encontramos obstáculos e sentimos vontade de desistir. Pensadores tentaram nos ajudar a diminuir o sofrimento e deram conselhos sobre como fazer a dor sumir. Mas um deles tinha outra abordagem sobre o assunto.
 
Nietzsche acreditava que o sofrimento deveria ser aceito por quem busca a felicidade, que devemos vê-lo como um desafio a ser vencido como o alpinista escalando uma montanha. Acreditava ser até uma vantagem ter reveses na vida. Até mesmo desejava dificuldades às pessoas que amava.
 
Do alto de uma montanha podemos entender melhor o que Nietzsche quis dizer. A vista é sublime, há uma quietude no ar, nuvens passam acima e abaixo de nós, vemos vilarejos e florestas, sentimos algo glorificante, que estamos no topo do mundo! Aqui temos as melhores vistas, mas é difícil chegar ao topo. Essa é a visão de Nietzsche: para alcançar algo que vale a pena em geral precisamos fazer um esforço extraordinário.
 
Ele sabia bem o que era esforço físico e mental, pois a sua vida foi muito difícil. Teve doenças como sífilis e foi morar na Suíça por causa do clima saudável em 1879 e passou oito anos em um quarto alugado por um fazendeiro, onde escreveu seus livros.
 
Suas obras fizeram pouca fama durante sua vida. Era professor desde os 24 anos, mas teve que se aposentar com 36 por divergir muito de seus colegas. Na maior parte da sua vida Nietzsche teve pouco dinheiro. Acordava cedo, escrevia até o meio-dia e depois escalava montanhas para meditar. Sua vida amorosa foi um desastre, pois assustava as mulheres com seu enorme bigode. Lamentava muito não ter uma esposa. Mergulhou na filosofia, mas sua produção foi interrompida pelo enlouquecimento em 1889 e morreu onze anos depois na idade de 56 anos.
 
Uma lição que as dificuldades ensinaram a Nietzsche é que qualquer realização nasce da luta e do trabalho árduo. Embora acreditemos que o sucesso aconteça facilmente para alguns, não há caminho fácil para o topo. Não fale de talentos natos: conhecemos pessoas brilhantes que não têm muitos dons, mas se tornaram grandiosas e geniais superando as dificuldades. Requer muito trabalho, dedicação, sacrifícios e amor, treinar exaustivamente até o difícil parecer fácil.
 
Sem sacrifício não há vitória, o que compensa exige sofrimento. A satisfação de realizar-se é tão grande que compensa o preço requerido. A dificuldade é algo normal. Não devemos desistir quando a encontramos. Sofremos por causa da lacuna entre o quem somos e quem queremos ser. Também sofremos por não obtermos imediatamente aquilo que desejamos.
 
Mas não basta sofrer, pois se dificuldades bastassem todos nós seríamos felizes. O desafio é aprender a reagir bem aos sofrimentos e usar isso para criar algo belo. Assim podemos nos beneficiar das dificuldades. Elas podem nos obrigar a nos superarmos e a recomeçar de maneira melhor. É desagradável, mas podemos redimensionar o problema em nossa mente e o reinterpretar de maneira mais construtiva. A experiência pode nos ensinar a sermos mais humildes, empáticos e cuidadosos.
 
Nossa cultura ensina a evitar falar de nossas falhas, como se só os outros falhassem, como se sucesso e insucesso fossem incompatíveis. Mas até os bem-sucedidos erram e obtêm maus resultados, mesmo que em assuntos menores. E como avaliar seu sucesso se você nunca falhou? Assim, podemos reverter para nosso bem os reveses.
 
A questão não é tanto os reveses, mas a forma como os encaramos e lidamos com eles. As raízes de uma planta podem ser feias, mas são necessárias para termos as belas flores que ela produz. Temos que ser jardineiros de nossa própria vida. E como um campeonato esportivo, só podemos obter vitórias nos expondo aos rigores do treinamento e do campeonato e aceitando o risco de perder.
 
Existem formas inadequadas de reagir ao sofrimento. Uma delas é levar uma vida hedonista, em que buscamos desesperadamente os prazeres para esquecermos os problemas. Fugir dos problemas não os resolve, nem produz felicidade. Precisamos aprender a enfrentá-los de forma construtiva.
 
Nietzsche era filho e neto de pastores protestantes, mas acreditava que a ajuda da religião para enfrentarmos nossos é um entorpecimento da dor que nos faz deixar de enfrentar nossos problemas adequadamente e assim obter felicidade. Enfraquece nossa determinação de superar nossos problemas, assim como o álcool.
 
Temos que parar com o autoengano de acreditarmos que não temos desejos difíceis de realizar. Dizer que o sofrimento pode ser revertido para nosso bem de forma alguma quer dizer que ele seja bom e agradável. Mas temos que ousar escalar a montanha para vislumbrar a bela vista e respirar o ar puro do topo, compreender o valor de abandonar o comodismo em favor da escalada que nos levará à realização. O que não nos mata nos fortalece. O sofrimento é até mesmo vital para a felicidade. Nem tudo o que nos faz sofrer é ruim para nós, assim como nem tudo que é agradável nos beneficia. A crença de que todo e qualquer sofrimento sempre é ruim deve ser abolida.
 
http://www.youtube.com/watch?v=QYr4zhnIsH0
 
 
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