segunda-feira, 1 de julho de 2013

Religião e Resiliência (2/2)


Na Física, “resiliência” é a propriedade de um material retornar à forma ou posição original depois de cessar a tensão incidente sobre o mesmo, determinada pela quantidade de energia devolvida após a deformação elástica. Na Biologia, é a capacidade de um ecossistema retornar à condição original de equilíbrio após suportar alterações ou perturbações ambientais. Na Psicologia, é a habilidade que uma pessoa desenvolve para resistir, lidar e reagir de modo positivo em situações adversas.


Assim, “resiliência” é a capacidade de atravessar dificuldades adaptando-se e depois delas recuperar a saúde psíquica anterior às mesmas. As diferenças individuais quanto à resiliência e à vulnerabilidade são fatores-chave na duração e intensidade dos sintomas relacionados aos traumas.
 
Alguns traços de personalidade protegem os indivíduos expostos a estresse muito intenso e/ou muito prolongado. Estudos com sobreviventes dos campos de concentração nazistas que após esta experiência foram capazes de manterem-se saudáveis e levar uma vida normal indicam três componentes
 
(1) Compreensão Cognitiva: a vida e seus acontecimentos têm sentido em termos cognitivos, é a capacidade de compreender a situação como um todo;
 
(2) Significado Emocional: a vida e seus acontecimentos têm sentido em termos emocionais, os problemas são vistos como desafios e não como fardos, o foco é no que tem de bom e no que pode fazer;
 
(3) Proatividade: senso de responsabilidade e de iniciativa para usar os recursos disponíveis fazendo o que estiver dentro de seu alcance a fim de lidar com os desafios da vida da forma mais produtiva possível.
 
Conforme comprovado por centenas de estudos, características como estas ajudam a explicar como algumas pessoas se recuperam melhor de traumas do que outros que passaram por experiências semelhantes: elas fazem com que estes indivíduos sejam mais resilientes sob condições de estresse muito intenso e/ou muito prolongado.
 
Outros estudos demonstram que um fator decisivo para desenvolver resiliência é o modo como o indivíduo processa e elabora mentalmente a experiência. Pessoas que possuem o padrão de interpretar os problemas como desafios a serem enfrentados e de buscar modificar as circunstâncias atuais de forma construtiva possuem maior capacidade de superar traumas psicológicos. Por outro lado, padrões de autopiedade, autodepreciação, complexo de vítima e de abandono intensificam os sentimentos negativos relacionados às lembranças traumáticas e exacerbam o sofrimento.
 
Ainda outros estudos demonstram que a religiosidade pode ajudar o enfrentamento do trauma através do apoio social do grupo, que em geral desencoraja comportamentos autodestrutivos e incentiva o perdão e a continuidade da vida alinhada à saúde.
 
Pessoas que são exemplos de indivíduos que superaram eventos traumáticos e neste processo tiveram um aprendizado, cultivaram uma maior maturidade e espiritualidade, desenvolveram serenidade para enfrentar dificuldades e restauraram confiança para prosseguir suas vidas servem de modelos para aqueles que ainda estão nos primeiros passos da recuperação.
 
Nossa compreensão sobre a adaptação humana ao trauma se estende aos poucos. Dado o reconhecimento dos efeitos potenciais das crenças religiosas e espirituais nos comportamentos resilientes, os estudos nesse âmbito devem continuar. Contudo, a integração das dimensões espirituais e religiosas dos clientes em seus tratamentos requer alta qualidade de conhecimento e habilidades para alinhar as informações coletadas sobre as crenças e valores à eficácia terapêutica.
 
 
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