Não sendo nem uma religião
nem uma ideologia, o conjunto de opiniões chamado de conservadorismo não possui
Sagradas Escrituras, nem um Das Kapital, como fonte dos dogmas. Não existe um
modelo conservador, e o conservadorismo é a negação da ideologia: é um estado
de espírito, um tipo de caráter, um modo de viver a ordem civil e social.
A
continuidade histórica da experiência de um povo, diz o conservador, oferece um
guia político muito melhor do que os projetos abstratos dos filósofos dos
cafés. Os dez “artigos de fé” seguintes refletem aquilo que os conservadores,
nos Estados Unidos de hoje, põem em relevo.
01- O conservador acredita que há uma ordem
moral duradoura. Essa ordem é
feita para o homem, e o homem é feito para ela: a natureza humana é uma
constante, e as verdades morais são permanentes.
Nosso mundo do século XX
experimentou as terríveis consequências do colapso da crença em uma ordem
moral. Tal como as atrocidades e os desastres ocorridos na Grécia do século V
antes de Cristo, a ruína de grandes nações no nosso século mostra o abismo no
qual caem as sociedades que confundem o autointeresse inteligente ou controles
sociais engenhosos com alternativas agradáveis a uma ordem moral ultrapassada.
02- O conservador adere aos costumes, à
convenção e à continuidade. A continuidade
é o meio de unir geração a geração; importa tanto para a sociedade quanto para
o indivíduo; sem ela, a vida não faz sentido.
Os conservadores são
defensores dos costumes, da convenção e da continuidade, porque preferem o mal
que conhecem ao mal que não conhecem. A lembrança, feita por
Burke, da necessidade de uma mudança prudente está sempre na mente dos conservadores;
mas a necessária mudança, argumentam, deve ser gradual e judiciosa, nunca desenraizando
antigos interesses de um só golpe.
03- Os conservadores acreditam no que se
pode chamar de princípio da consagração pelo uso. Os conservadores percebem que as pessoas da era
moderna são anões nos ombros de gigantes, capazes de enxergar muito além dos
antepassados apenas por causa da grande estatura daqueles que os precederam. Conservadores afirmam ser
improvável que façamos qualquer descoberta nova e extraordinária
em moral, política ou gosto.
04- Os conservadores são guiados pelo
princípio da prudência. Complexa
como é a sociedade humana, as soluções não podem ser simples, se têm de ser
eficazes. O conservador declara agir somente após suficiente reflexão, tendo
sopesado as consequências. Reformas rápidas e agressivas são tão perigosas quanto
cirurgias rápidas e agressivas.
05- Os conservadores prestam atenção ao
princípio da variedade. A
sociedade almeja por uma liderança honesta e capaz; se as diferenças naturais e
institucionais entre as pessoas forem destruídas, em breve algum tirano ou
alguma sórdida oligarquia criarão novas formas de desigualdade.
06- Os conservadores são disciplinados pelo
princípio de imperfectibilidade.
Por ser o homem imperfeito, uma ordem social perfeita jamais pode ser criada.
07- Os conservadores estão convencidos de que
a liberdade e a propriedade estão intimamente ligadas. A instituição das diversas propriedades – isto é,
da propriedade privada – é até hoje um poderoso instrumento para ensinar
responsabilidade a homens e mulheres, para dar incentivos à integridade, apoiar
a cultura geral, elevar a humanidade acima do nível de uma mera lida repetitiva
e opressora e proporcionar as horas vagas para pensar e a liberdade para agir.
08- Os conservadores defendem comunidades
voluntárias, da mesma forma que se opõem a um coletivismo involuntário. O que quer que seja beneficente e prudente numa
democracia moderna é possibilitado por volições cooperativas. Se, portanto, em
nome de uma democracia abstrata, as funções da comunidade são transferidas a
uma direção política distante – ora, aí o verdadeiro governo pelo consentimento
dos governados dá ensejo a um processo padronizante, hostil à liberdade e à
dignidade humana.
09- O conservador vê a necessidade de limites
prudentes sobre o poder e as paixões humanas. A anarquia nunca dura muito, por ser intolerável para todos e contrária
ao fato inelutável de que algumas pessoas são mais fortes e inteligentes que
seus semelhantes. À anarquia se sucedem a tirania ou a oligarquia, nas quais o
poder é monopolizado por uns poucos. É uma característica do radical pensar no
poder como uma força para o bem – desde que o poder recaia em suas mãos.
Sabendo que a natureza
humana é uma mistura de bem e mal, o conservador não deposita a confiança na
mera benevolência. Restrições constitucionais, freios e contrapesos políticos,
um cumprimento adequado das leis, a velha e intricada rede de restrições sobre
a vontade e o apetite – são aprovados pelo conservador como instrumentos da
liberdade e da ordem. Um governo justo mantém uma tensão saudável entre as
pretensões da autoridade e as pretensões da liberdade.
10- O conservador razoável entende que a
permanência e a mudança devem ser reconhecidas e reconciliadas em uma sociedade
vigorosa. O conservador, em suma,
favorece um progresso refletido e moderado; opõe-se ao culto do progresso,
cujos devotos acreditam que tudo o que é novo é necessariamente superior ao que
é antigo.
* * *
Em 'A Política da Prudência', Kirk esforça-se por defender uma verdadeira 'política prudencial'
conservadora em oposição à 'política ideológica' fomentada pelos que se tinham
identificado como conservadores aliados, incluindo libertários e
neoconservadores. Kirk expõe dez princípios, acontecimentos, livros e
pensadores que definiram a mentalidade e a alma conservadoras. Também analisa
as dificuldades apresentadas aos conservadores pelo aumento da centralização
política e econômica, por políticas internacionais imprudentes, pela
deterioração educacional e por outros sintomas de decadência cultural. Este
livro leva a apresentação de Alex Catharino, introdução de Mark C. Henrie, e ensaios
de Bruce Frohnen, Gerhart Niemeyer e Edward E. Ericson Jr.
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