sábado, 15 de março de 2014

Vício de Depreciar (5/5): Estratégias de Mudança


Vamos considerar mais três questões relacionadas ao vício do “sim, mas”: (1) como dizer “sim” para os outros, (2) como dizer “não” para os outros e (3) como lidar com depreciadores compulsivos.


DIZER “SIM” PARA OS OUTROS

Se você tem o vício de dizer “sim, mas” para os outros, pode estar erguendo uma barreira de animosidade entre vocês. Caso não queira isso, deve buscar modos mais positivos de se relacionar com eles. Como sempre, é necessário prestar atenção ao que exatamente você está fazendo e identificar os seus motivos inconscientes. Você está extravasando sentimentos negativos? Tentando impor seu poder? Tentando se engrandecer? Ou é simplesmente um mau hábito? Pense bem...

Alguns têm o vício de sempre salientar algum aspecto negativo, mesmo que seja a respeito de algo sem importância e mesmo que seja totalmente desnecessário. Não há ocasiões em que podemos nos limitar a dizer “sim, está bom” e pararmos?
  •  “A lasanha estava maravilhosa, pena que o refrigerante não era X”
  • “A lasanha estava maravilhosa” [ponto final]
  
Isso não significa que nunca possamos fazer uma objeção válida ou uma correção quando necessário. O ponto-chave aqui é a compulsão de procurar e mencionar algum aspecto negativo quando ele tem pouca ou nenhuma importância. Como todos os erros cognitivos, o “sim, mas” torna-se um problema quando é usado inadequadamente.


DIZER “NÃO” PARA OS OUTROS

O mote “Diga Não!” transmite força e parece fácil, mas às vezes pode ser muito difícil. Requer afirmar-se e recusar-se a fazer o que alguém quer. Para algumas pessoas, o simples pensar nesta possibilidade já desencadeia um surto de ansiedade e catastrofismo. A assertividade de fato envolve certo risco. Porém, aceitar tudo e depois não realizar pode ser muito pior.

Ricardo é um assistente administrativo que atende três gerentes em uma empresa. Os três lhe pedem tarefas, que ele sempre aceita para não contrariá-los, mesmo que isso signifique viver sobrecarregado, cometer mais erros que precisam ser corrigidos e correr o risco de um dia não realizar alguma tarefa muito importante. Ele teme que, se recusar uma tarefa, vai ser demitido, ficar desempregado muito tempo, perder a casa.

De fato, um dos gerentes pode ficar irritado se algo que quer não for realizado prontamente. Não é impossível. Mas esse mesmo gerente ficaria muito mais irritado se pedisse uma tarefa importante e só depois do prazo expirado soubesse que Ricardo não tinha condições de fazê-la a tempo.

Tenha em mente que ser assertivo não significa ser agressivo e entrar em conflito com a pessoa. Não é necessário explodir e jogar toda a papelada na cara do gerente. Isso não seria ser assertivo e sim ser agressivo. A assertividade genuína é forte, mas serena. Em vez de reagir por impulso de forma passiva ou agressiva, é muito mais produtivo fazer um planejamento para encontrar soluções.

O próprio Ricardo ou outra pessoa pode filtrar as tarefas e ordená-las por ordem de prioridade. Talvez um dos gerentes seja hierarquicamente superior aos outros dois e suas tarefas sejam prioritárias em relação às deles. Mesmo que sejam iguais, cada gerente poderia informar o nível de urgência de cada tarefa que lhe pede. E os próprios gerentes podem dar sugestões sobre como atender melhor às necessidades deles.

É provável que os três gerentes sejam suficientemente razoáveis para aceitar negativas e sugestões bem colocadas. Ricardo deve se perguntar se está exagerando e sendo telepata ao pensar que eles ficariam furiosos e o demitiriam só por causa disso. De que evidências ele dispõe?


COMO LIDAR COM ALGUÉM TIPO “SIM, MAS”

O mundo está cheio de viciados em depreciar, dotados de uma incrível capacidade e compulsão de anular toda e qualquer alegria que possamos derivar do que fazemos.

Você tira nota dez em uma matéria e o depreciador imediatamente indaga quanto tirou mesmo naquela outra matéria em que sua nota foi vermelha. É promovido a gerente e o depreciador objeta “sim, mas é uma empresa pequena”. Acaba de comprar um carro novo e ele tem que dizer algo desabonador sobra a marca dele ou sobre o financiamento que você usou.

Não se trata aqui de pessoas que de modo geral sabem apreciar o que você é e faz e ocasionalmente podem fazer algum comentário negativo (mas construtivo) realmente necessário sobre algum ponto específico. Estamos falando aqui de pessoas literalmente viciadas em depreciar tudo.

Ter consciência do erro do “sim, mas” pode nos ajudar a lidar com aqueles que parecem determinados a estragar toda e qualquer festa nossa. Nenhuma crítica deve ser aceita cegamente, em especial a de depreciadores crônicos. Nem sempre estamos em posição de refutar diretamente o que foi dito. E muitas vezes simplesmente não compensa fazê-lo. Mas sempre podemos questionar nossos críticos em nosso íntimo.

É mais uma forma de contestar nossos críticos. Não precisamos necessariamente replicá-los de forma audível para que eles e terceiros ouçam; em alguns casos basta que nós mesmos ouçamos a réplica em nosso interior. É importante reconhecermos quando estamos lidando com um depreciador compulsivo, de modo a identificarmos o equívoco que ele comete, em vez de aceitarmos prontamente suas avaliações a nosso respeito como se viessem de uma pessoa ponderada. Assim, reduza ao mínimo possível suas interações com indivíduos negativistas (de preferência para zero) e torne-se imune à sua influência.

Nem sempre podemos (ou devemos) dar uma resposta verbal aos depreciador crônico. Mas sempre podemos dizer em nosso diálogo interno: “Sim, isso é o que ele pensa, mas eu sou mais eu”.


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