sábado, 8 de março de 2014

Keep Calm and Carry On

Uma das maiores fontes de stress é a obrigação de parecer feliz e de cumprir uma série de outras imposições que exigimos uns dos outros. Acontece o tempo todo, mas em alguns períodos do ano a pressão se intensifica. Um desses períodos é o fim de ano, quando desde a segunda quinzena de outubro somos pressionados a nos lembrar de que ele está chegando. Você já tem que saber responder sobre o que vai comprar, o que vai fazer, onde e como vai passar. E as respostas precisam ser “boas”.

Espera-se que as pessoas sigam uma série de tradições natalinas, que gastem tempo e energia preparando-se para festejar, que gastem até o limite ou o ultrapassem, que passem o réveillon em um lugar interessante e cheio de animação e assim por diante. E tudo deve ser devidamente registrado e divulgado. Precisamos ser “felizes” (tanto ou mais do que os outros) e demonstrar isso para todo mundo. Se você não vive em função usufruir o máximo de “felicidade” possível, pode ser considerado um alienado, um frustrado, um perdedor, talvez até um misantropo.
  
Mal termina uma época, já começam a falar da próxima. Poucos dias depois do réveillon já ouvimos falar do carnaval e assim por diante. E a pressão retorna, em maior ou menor grau dependendo do ambiente. O pior é que a maioria das pessoas em algum nível de consciência sabe que o pessoal não está comemorando porque é feliz, mas justamente porque não quer pensar em sua infelicidade. Tudo para mostrarem uns aos outros uma fachada de felicidade que todos sabem ser falsa, mas que ninguém pode deixar de ostentar. E este é um assunto proibido, falar dele é ser um estraga-prazeres e cometer misantropia. Todos continuam pressionando todos a fingirem que são felizes e anestesiar os sintomas, gerando mais stress.
  
Entre outros motivos, vivemos angustiados porque não nos desapegamos do passado e não paramos de pensar obsessivamente no futuro. Uma parábola oriental expressa esse desequilíbrio:
  
Um homem perseguido por um tigre na selva e começa a descer por um despenhadeiro segurando-se em uma parreira. Porém, no meio do percurso ele vê outro tigre lá embaixo e assim fica preso entre as duas feras, não podendo descer nem subir. Mas então chegam dois ratos (um branco e um preto) e começam a roer a parreira que ele segura. Tenta espantá-los, mas eles retornam. Neste momento percebe um morangueiro carregado próximo dele. Apanha um morango maduro e pensa “Que delícia!”
  
A lição é viver o momento. O topo do despenhadeiro representa o passado e o primeiro tigre é o perigo da fixação no que aconteceu de mau e/ou de bom. A base do despenhadeiro é o futuro e o segundo tigre é a obsessão com o que acontecerá de mau e/ou de bom. A posição do homem entre os dois tigres representa o presente e a parreira é nossa vida. Os dois ratos são a passagem do tempo (dia e noite) que nos aproxima cada vez mais do nosso derradeiro futuro. E o morango representa aquilo que temos de bom no aqui e agora. Comer o morango é usufruir o momento.
  
Quando a Inglaterra começou a enfrentar a Alemanha na Segunda Guerra em 1939, o governo inglês encomendou três pôsteres de duas cores, um desenho da coroa e uma frase de efeito para motivar a população. Os dois primeiros foram impressos e distribuídos, mas o terceiro ficou reservado para ser lançado apenas em caso de uma grande crise (como uma invasão alemã). Ele acabou não sendo distribuído e foi esquecido até ser redescoberto no ano 2000 e ficar mundialmente famoso. Sua frase era “Keep calm and carry on”, ou seja: “Mantenha a calma e siga em frente”.
  

  
Três sugestões para colocar em prática esse slogan. Primeiro, simplifique sua vida e vá mais devagar na medida do possível (e em geral é mais possível do que imaginamos). Simplicidade não é necessariamente pobreza e inferioridade. Algo é simples quando não possui excessos, não possui acréscimos e complicações desnecessários, quando é descomplicado porque possui poucos os elementos realmente necessários. Analise o que você pode simplificar em sua vida.
  
Elimine ou reduza aquilo que não é de fato necessário, que só consome tempo, energia e recursos e pouco ou nada contribui para o seu bem-estar. Pense vinte vezes antes de assumir uma nova responsabilidade. Isso vale tanto para objetos e eventos grandes (fazer uma pós-graduação, trocar de carro, etc.) quanto para os pequenos. Que tal, em vez de saírem para comprar um lanche, enfrentando trânsito e pagando caro, se vocês comprassem os ingredientes e fizessem em casa? Além do prazer de comê-lo, teriam o prazer de fazê-lo juntos no sossego de sua residência.
  
Segundo: sem se tornar um inconformista crônico, aprenda a analisar e a não necessariamente fazer o que todo mundo faz. Se a maioria dos seus conhecidos vai viajar no fim de ano, mas você decidir que prefere ficar descansando em casa mesmo, então fique. Não viagem só por obrigação, por medo de parecer diferente e do que talvez vão pensar de você. Os verdadeiros amigos vão respeitar sua decisão, mesmo que eles pessoalmente decidam diferente. E o mesmo vale para todas as tradições.
  
Terceiro, se você decidir manter ou realizar certa complicação em sua vida, se prepare para os custos, não apenas em termos de dinheiro, mas também de tempo, energia, oportunidades eliminadas, possíveis transtornos, etc. Por exemplo, se decidir fazer uma viagem de avião, terá que passar por todos os procedimentos na ida e na volta. Terá que enfrentar filas, possíveis atrasos e assim por diante. Então não fique reclamando da vida nem se queixando de outros, nem sequer em seu diálogo interno. Foi você mesmo que escolheu fazer essa viagem. Ou cursar essa pós, ou trocar de carro, ou sair para comprar um lanche, ou seja o que for. Tudo tem vantagens e desvantagens, custos e benefícios. Faça uma boa autoavaliação e um bom planejamento e seja responsável. Isso se chama “maturidade”.
  
  
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