Uma das maiores fontes de
stress é a obrigação de parecer feliz e de cumprir uma série de outras imposições
que exigimos uns dos outros. Acontece o tempo todo, mas em alguns períodos do
ano a pressão se intensifica. Um desses períodos é o fim de ano, quando desde a
segunda quinzena de outubro somos pressionados a nos lembrar de que ele está
chegando. Você já tem que saber responder sobre o que vai comprar, o que vai
fazer, onde e como vai passar. E as respostas precisam ser “boas”.
Espera-se que as pessoas
sigam uma série de tradições natalinas, que gastem tempo e energia preparando-se
para festejar, que gastem até o limite ou o ultrapassem, que passem o réveillon
em um lugar interessante e cheio de animação e assim por diante. E tudo deve
ser devidamente registrado e divulgado. Precisamos ser “felizes” (tanto ou mais
do que os outros) e demonstrar isso para todo mundo. Se você não vive em função
usufruir o máximo de “felicidade” possível, pode ser considerado um alienado,
um frustrado, um perdedor, talvez até um misantropo.
Mal termina uma época, já
começam a falar da próxima. Poucos dias depois do réveillon já ouvimos falar do
carnaval e assim por diante. E a pressão retorna, em maior ou menor grau
dependendo do ambiente. O pior é que a maioria das pessoas em algum nível de
consciência sabe que o pessoal não está comemorando porque é feliz, mas
justamente porque não quer pensar em sua infelicidade. Tudo para mostrarem uns
aos outros uma fachada de felicidade que todos sabem ser falsa, mas que ninguém
pode deixar de ostentar. E este é um assunto proibido, falar dele é ser um
estraga-prazeres e cometer misantropia. Todos continuam pressionando todos a
fingirem que são felizes e anestesiar os sintomas, gerando mais stress.
Entre outros motivos,
vivemos angustiados porque não nos desapegamos do passado e não paramos de
pensar obsessivamente no futuro. Uma parábola oriental expressa esse
desequilíbrio:
Um homem perseguido por um tigre na selva e começa
a descer por um despenhadeiro segurando-se em uma parreira. Porém, no meio do
percurso ele vê outro tigre lá embaixo e assim fica preso entre as duas feras,
não podendo descer nem subir. Mas então chegam dois ratos (um branco e um
preto) e começam a roer a parreira que ele segura. Tenta espantá-los, mas eles
retornam. Neste momento percebe um morangueiro carregado próximo dele. Apanha
um morango maduro e pensa “Que delícia!”
A lição é viver o
momento. O topo do despenhadeiro representa o passado e o primeiro tigre é o
perigo da fixação no que aconteceu de mau e/ou de bom. A base do despenhadeiro
é o futuro e o segundo tigre é a obsessão com o que acontecerá de mau e/ou de
bom. A posição do homem entre os dois tigres representa o presente e a parreira
é nossa vida. Os dois ratos são a passagem do tempo (dia e noite) que nos aproxima
cada vez mais do nosso derradeiro futuro. E o morango representa aquilo que
temos de bom no aqui e agora. Comer o morango é usufruir o momento.
Quando a Inglaterra
começou a enfrentar a Alemanha na Segunda Guerra em 1939, o governo inglês encomendou
três pôsteres de duas cores, um desenho da coroa e uma frase de efeito para
motivar a população. Os dois primeiros foram impressos e distribuídos, mas o
terceiro ficou reservado para ser lançado apenas em caso de uma grande crise
(como uma invasão alemã). Ele acabou não sendo distribuído e foi esquecido até
ser redescoberto no ano 2000 e ficar mundialmente famoso. Sua frase era “Keep
calm and carry on”, ou seja: “Mantenha a calma e siga em frente”.
Três sugestões para
colocar em prática esse slogan. Primeiro, simplifique sua vida e vá mais
devagar na medida do possível (e em geral é mais possível do que imaginamos).
Simplicidade não é necessariamente pobreza e inferioridade. Algo é simples
quando não possui excessos, não possui acréscimos e complicações
desnecessários, quando é descomplicado porque possui poucos os elementos realmente
necessários. Analise o que você pode simplificar em sua vida.
Elimine ou reduza aquilo
que não é de fato necessário, que só consome tempo, energia e recursos e pouco
ou nada contribui para o seu bem-estar. Pense vinte vezes antes de assumir uma
nova responsabilidade. Isso vale tanto para objetos e eventos grandes (fazer
uma pós-graduação, trocar de carro, etc.) quanto para os pequenos. Que tal, em
vez de saírem para comprar um lanche, enfrentando trânsito e pagando caro, se
vocês comprassem os ingredientes e fizessem em casa? Além do prazer de comê-lo,
teriam o prazer de fazê-lo juntos no sossego de sua residência.
Segundo: sem se tornar um
inconformista crônico, aprenda a analisar e a não necessariamente fazer o que
todo mundo faz. Se a maioria dos seus conhecidos vai viajar no fim de ano, mas
você decidir que prefere ficar descansando em casa mesmo, então fique. Não viagem
só por obrigação, por medo de parecer diferente e do que talvez vão pensar de
você. Os verdadeiros amigos vão respeitar sua decisão, mesmo que eles pessoalmente
decidam diferente. E o mesmo vale para todas as tradições.
Terceiro, se você decidir
manter ou realizar certa complicação em sua vida, se prepare para os custos,
não apenas em termos de dinheiro, mas também de tempo, energia, oportunidades
eliminadas, possíveis transtornos, etc. Por exemplo, se decidir fazer uma
viagem de avião, terá que passar por todos os procedimentos na ida e na volta.
Terá que enfrentar filas, possíveis atrasos e assim por diante. Então não fique
reclamando da vida nem se queixando de outros, nem sequer em seu diálogo
interno. Foi você mesmo que escolheu fazer essa viagem. Ou cursar essa pós, ou
trocar de carro, ou sair para comprar um lanche, ou seja o que for. Tudo tem
vantagens e desvantagens, custos e benefícios. Faça uma boa autoavaliação e um
bom planejamento e seja responsável. Isso se chama “maturidade”.
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