terça-feira, 1 de julho de 2014

Paradoxos sobre a Liberdade

Artigo de Alessandro Vieira dos Reis
 
“O que é a liberdade?”, “É possível ser livre?”, “Somos mesmo livre ou isso não será uma ilusão?”. Perguntas assim nos prendem a atenção. Liberdade é um tema que fascina, que suscita questionamentos. Alguns ainda acham que apenas filósofos e poetas tem algo a dizer sobre o assunto. Mas neste artigo pretendo mostrar que não é bem assim. Cientistas não estão além dessas inquietações.
 
Aqui pretendo apresentar as respostas científicas a perguntas muito comuns sobre liberdade. Para tal partirei da abordagem Behaviorista Radical, integrante das Ciências do Comportamento.
 
Algumas pessoas estranharão ouvir que B. F. Skinner, o fundador dessa abordagem, tenha algo a dizer sobre liberdade. Afinal, ele foi tão fortemente associado a controle. Por sorte ao estudar-se as Ciências do Comportamento procurando ocorrências da temática da liberdade, logo se percebe que a sua temática está implicada nela. É justamente por melhor entender as relações de controle do comportamento que as Ciências do Comportamento nos ajudam a discernir melhor onde está a liberdade e quando alguém age de forma livre de fato.
 
B. F. Skinner, (1904-1990, EUA), propôs um paradigma de Ciência Comportamental, o Behaviorismo Radical. Tal abordagem é pautada na ideia de que o comportamento é um objeto passível de ser estudado cientificamente, e que tal objeto é determinado por eventos ambientais, contextuais. Para Skinner, não podemos escapar do determinismo do comportamento. Toda crença de que agimos como agimos simplesmente por uma vontade interior acontextual é encarada com ceticismo, uma vez que nossas ações são determinadas por nosso histórico, nosso ambiente físico e social, etc.
 
Vivemos em um universo de eventos relacionados contextualmente, estamos sempre “dentro de uma caixa”, isto é, enquadrados em uma determinada situação de controle. Quando achamos que saímos de vez da caixa acabamos descobrindo que a caixa de que acabamos de sair estava dentro de outra maior ainda.
 
O determinismo do comportamento apresentado por Skinner possui três níveis:
a) filogenético (herança biológica comum de uma espécie);
b) sociogenético (de uma dada comunidade verbal que compartilha um ambiente social e histórico);
c) ontogenético (a história única de cada indivíduo).
 
Assim, se Joãozinho prefere sorvete de chocolate ao de morango podemos achar três classes de determinantes nesse “ato de livre escolha”: Joãozinho é  um homo sapiens, portanto muito suscetível a reforçadores para alimentos doces (determinante filogenético); Joãozinho vive numa sociedade que supervaloriza sobremesas como sorvete ao invés de frutas (determinante sociogenético); e de repente Joãozinho teve uma mãe que preferia chocolate a morango e passou o gosto ao filho, junto com seu afeto (determinante ontogenético). De repente o “ato de livre escolha” de Joãozinho já não parece tão livre assim, não? Seu ato de tomar sorvete é determinado por diversos fatores alheios. Certamente Joãozinho é controlado, mas será que isso exclui necessariamente alguma liberdade em seu ato?
 
Se é inevitável ser determinado/controlado, será possível ser livre e determinado ao mesmo tempo?
Para responder a essa pergunta, apresentarei 6 paradoxos da Ciência Comportamental de B. F. Skinner a respeito da liberdade. Ao final da exposição pretendo ter esclarecido como pode haver espaço para liberdade pessoal num universo de comportamento determinístico.
 
* * *
 
Paradoxo 1 – É por ser determinado que o comportamento pode ser livre.
Ok, isso soa estranho, certo? Mas pense por um instante. Seríamos mesmo livres se nossas ações tivessem sempre consequências aleatórias? É por conseguir inferir, deduzir, estimar como que consequências nossas ações determinarão no mundo que podemos nos dizer livres. Portanto, o determinismo constitui sim parte integrante da liberdade.
 
Paradoxo 2 – Sentir-se livre pode ser um sinal de escravidão.
Aqui Skinner pode nos ser útil para identificar relações de controle que nos passavam desapercebidas. Destruidor de nossas ilusões de liberdade, da mesma forma que um médico pode destruir nossa crença errônea de que estamos saudáveis, Skinner figura como um crítico de noções primitivas de liberdade tais como: “sei que sou livre porque faço o que gosto, o que bem quero”.
 
Tal concepção subjetivista de liberdade é bem problemática do ponto de vista científico. Afinal, como o sujeito sabe que o que ele gosta não foi condicionado historicamente até mesmo contra sua vontade? Como ele diferencia um desejo seu de um desejo enxertado nele por outros?
 
Aqui nos alerta que um vago “sentimento de liberdade” não é o mesmo que “liberdade”. Deve haver condições mais objetivas para qualificar alguém ou algo como livre. Mas quais?
 
Paradoxo 3 – Quanto mais opções para escolher, menos liberdade.
Suponhamos que você tenha a possibilidade de escolher entre diversos sabores de sorvete assim que entra numa sorveteria. Essa variedade de coisas gostosas é sinal de liberdade pra você?  Quase todos dirão que sim. Mas note que a questão foi colocada pra você da seguinte forma: “Você precisa escolher”. A verdadeira liberdade seria poder escolher não escolher, ou criar outras opções diferentes daquelas pré-programadas. Se a “liberdade de escolher dentre opções possíveis” for toda liberdade que nos resta, então na verdade estamos apenas sendo controlados pela pessoa que programa as escolhas possíveis.
 
Até porque nossas escolhas, em tal tipo de situação,  não são aleatórias: a opção será tão provável de ser escolhida quanto o valor reforçador dela. Ou seja, para o controlador seria apenas uma questão de arranjar a distribuição de reforço para induzir determinada escolha.
 
Paradoxo 4 – Nem todo controle positivo é tão positivo assim.
Para muitas pessoas liberdade é não ser coagido a fazer algo, seja por ameaças e manipulações morais, seja por uso da força propriamente dita. Assim sendo, se a sociedade usasse mais sistemas de incentivos baseados em recompensas e menos em multas então seríamos mais livres. Daí surge algumas noções de sociedade ideal como sendo aquela sem nenhum tipo de coerção, mas apenas controle por reforçamento positivo. Tal utopia, mesmo que realizável, seria mesmo uma sociedade mais justa? Talvez não.
 
O incentivo baseado em recompensas, como dinheiro, amor, sexo, etc, pode ser altamente satisfatório, mas pode também gerar apenas escravos sorridentes. Não é porque um ambiente mais recompensa que pune que ele é mais livre. Por vezes uma relação de poder onde todos acabam sorrindo satisfeitos esconde as mais antiéticas formas de manipulação.
 
Paradoxo 5 – Liberdade é uma forma de controle.
Se entender que liberdade depende de determinismo pra existir (Paradoxo 1) foi estranho pra você, então pega essa: “Liberdade é uma forma de controle”! Diz-se que alguém é livre quando essa pessoa consegue efetivamente controlar sua própria vida. Mais que isso. Quando essa pessoa também consegue contracontrolar tentativas alheias de coação, manipulação, punição, etc. Em outras palavras, quando ela consegue rechaçar relações de poder insatisfatórias e estabelecer outras mais reforçadoras. Como disse Skinner, “sou livre a medida que controlo as condições que me controlam”.
 
Paradoxo 6 – Um mundo onde todos controlam todos é o mais livre dos mundos.
É bem isso que você ouviu. Se o poder econômico, social, moral, seja qual for, fosse tão bem distribuído, tão horizontalizado ao ponto que todos pudessem influir nas decisões de todos, e todos pudessem contracontrolar as influências de todos, então viveríamos em um mundo livre de fato. Essa ideia implica que liberdade só é possível numa sociedade em que as “agências de controle” [5] não sejam controladores centrais que vivam “livres” elas mesmas de serem controladas. Mais ainda: implica que uma sociedade onde cada um faz o que bem entende, sem precisar seguir regras para o convívio com outros, de forma alguma é livre!
 
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Conclusões
 
“Como sabemos se alguém é livre?” Talvez essa não seja a melhor pergunta. Afinal ninguém é livre sozinho, se essa liberdade é sempre determinada e ocorre em um ambiente social. Talvez a melhor pergunta seja: “Como saberemos se uma sociedade é livre?”
 
Separei alguns indicadores de liberdade numa sociedade que podem ajudar a responder essa questão. Uma sociedade é livre a medida que possui…
1) um mínimo de controle aversivo, de coações e de pessoas que tentam controlar outras de forma autoritária.
2) muitas escolhas reforçadoras disponíveis. Inclusive a escolha de não precisar escolher.
3) oportunidades abundantes de contracontrole. Cada indivíduo pode, de forma criativdade, criar uma opção diferente daquela planejada para ele seguir.
4) incentivo ao autocontrole, à autonomia do indivíduo. Isto é, espera-se que as pessoas ajam de acordo com o que é melhor para elas mesmas.
5) regras que façam com que as relações de poder sejam pulverizadas, distribuídas ao maior número possível de pessoas. Trata-se do empoderamento de cada indivíduo como decisor no conjunto da população.
 
Fica aqui, como fechamento, minha sugestão para estudos futuros: por um libertarianismo pautado não apenas em preceitos Econômicos, mas também em reflexões oriundas das Ciências Comportamentais.
 
OBS: Quando eu digo que Skinner defende o determinismo se trata aqui de uma forma conhecida como "determinismo probabilistico", que admite falhas, aproximações, exceções à regra, mudanças e eventos inesperados, etc. Ele é bem diferente de outro modo conhecido como "determinsimo absoluto", ou "mecanicista", que diz é mais maquinal e seco e pelo qual seria possível prever com exatidão as ações das pessoas.
 
 
 
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